sábado, 8 de março de 2014

Crescente

querendo escrever
ao ritmo de colcheias
deslizo bemol
em ti

e com a altura
de teus olhos
estremeço

grave


quarta-feira, 5 de março de 2014

Meu coração é uma onda

quebrando na praia
beijando a areia
querendo curar.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Não vem ninguém

perdi a paciência
os amigos os encontros
perdi a hora
o ônibus o amor
perdi o riso
entre uma piada e outra
que nunca entendo de primeira
perdi o caminho
tentando acertar
perdi o jeito de caber 
entrelinhas
restou só este poema
perdido no tempo.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Menos flor

uma faísca daquele sorriso
ainda me ilumina
queria chegar afiada
cravando o verso
como faca em algum coração

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Oco é uma palavra vazia

ninguém me respondia
quantos infinitos
escondem o horizonte?

quem me olha
nos olhos vê mais que um caminho?


terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Alameda das Flores


Era como se eu precisasse
lembrar de quem eu sou
do meu lugar
porque naquela avenida
ainda correm meus pés
ainda o vento sopra em meu corpo
ainda faz nós no cabelo
nas mãos

Era como se precisasse
lembrar que andar sobre andar
cada degrau ali sabe a cor perdida dos meus dias
todas as paredes têm meu cheiro
a paisagem da janela ainda é minha
o som da bola embaralhada entre os gols
dos meninos
só eu sei tocar!
esses bancos de cimento vazio
estão à minha espera

era como se quisesse lembrar
estou aqui
você não.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

O lado direito

quando o sal cristalizar meu corpo
amanhã
não serei eu

o que palpita no peito
dança
nada diz

quero viver a mim
pelo avesso
vestir a cor que grassa
o verso.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Eu sei a cor do vazio

Quando chegou eu desenhava o infinito. Com a ponta do dedo dava forma ao universo inteiro, todos, ninguém me conhecia. O vazio era um lugar sem cor e longe, dava para ver a poeira cobrindo meu corpo e eu empurrava toda mão que me queria chegar. Não vou ficar aqui muito tempo, o vazio é triste e eu tenho medo de ser triste também. Olha, você me perdoa?

Quando chegou eu assistia ao vento dançar. Foi a maior conquista daqueles anos. Todos, ninguém me reconhecia. Você é o vazio de si mesma. Vem, deita aqui, eu não tenho medo, vou ficar.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Diálogos [João e Marília] XVI

- A  verdade é una mas divisível, como o amor, Marília, esse que te causa medo. Esse que colocas tão distante quando o tens ao alcance de um abraço. O que você faz, também, sozinha, com tanto amor nas mãos, com tanto amor escorrendo de ti, com tanto amor perfumando teus cabelos? Me diz!


sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Fazia um tempo bom

era tanto mar
dentro de mim
sinto dores incuráveis
que medo de ser horizonte.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Eu não tenho sete vidas

Aqueles poemas nunca escritos deram de despertar todos de uma só vez. Andaram a me perseguir, gritam meu nome pelas ruas em plena manhã. Dou passos largos, evito correr mas continuo suando muito. Eles não param, velam meu sono e quando percebo: sonho. Estou no topo da escada, eles me puxam pelo braço. O abraço. Grito. Não pode ser. Choro. Acenderam a luz, vasculharam todo meu quarto mas não tinha ninguém. Corria um rio, eu era salgada e sangrava das mãos. Todos cheiravam como o vazio e cantavam enquanto eu dormia segurando a mão que dizia adeus. Tão longe.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Diálogos [João e Marília] XV

- A verdade não é saudável. Não quando digerida assim, João, sem companhia. Não quando nem mesmo pode me salvar.
- Mas a verdade brota de ti sem que disso você tenha controle. Eu sinto o cheiro dela na sua voz, não faça disso pouco, Marília. A mentira não terá por ti misericórdia. Renda-se!

sábado, 30 de novembro de 2013

Motivo 9

tem uma casquinha de sorvete no céu, vê?
sorria!

domingo, 24 de novembro de 2013

Esconderijo

Construí poemas
para te guardar
verso sobre verso
ergui lugares altos
longínquos

A queda
foi inevitável
não se culpe

Ao me levantar
nas linhas
em desatino
a vida será outra estrofe
líquida
escorrendo de minhas mãos
em der(rota)
um sopro de sacrifício.

sábado, 26 de outubro de 2013

Cadeira de balanço

No quintal da Vó não tinha pitangueira nem hortinha
eu não corria descalça na terra úmida
não ficava observando as minhocas ou galinhas

O quintal era seco
sem fantasia
longe de tudo

Longe
todos os abraços
naquele mundo tão frígido

Nenhuma paz descansava no silêncio
nenhuma história acordava para mim.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Eu não vejo fim

Existe quem só veja pele
eu enxergava verso
em cada linha do teu rosto
eu encontrava caminho
em tuas mãos

Houve quem só vislumbrasse
um corpo magro e fixo neste tempo
eu te vestia poesia
e sei tuas letras
tua forma
para além do espaço.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

deitada aqui
aos pés da madrugada
eu apago o céu
com a mesma mão que desenhando sonhos
encontro a ti

depois
tateando no escuro
toco em sol
ardendo a ponta dos dedos
lambendo as lágrimas
que escorrem da lua


terça-feira, 1 de outubro de 2013

Para além do infinito tem você



Para Elícia Camilly, minha cor feliz.

A julgar pelo que somos
há quem diga
você tem tudo de mim

Eu, desconfio
mas a bem da verdade
é você quem tem
o País das Maravilhas nas mãos

Um mundo mágico 
onde a infância persiste
e revela o encanto.

A julgar pelo que somos
você deveria ter vindo de mim
e veio para mim
vestida em amor
instaurando paz.

Eu te amo pelo que és, Elícia
esta forma singular
inventando a Alice
que eu desejo ser.


segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Num tempo de agora

uma estrela pequenina
que apertei em minha mão
furou minha pele
habitou em mim

adormeceu
sangrando lágrimas
me deixei partir

sinto tanta saudade de ser inteira.

Estes olhos, esta casa desabitada

Estes olhos que agora vejo
não são meus
resignaram-se a horizontes pequenos
não sabem mais o azul
transbordam invisíveis

Estes olhos que agora me veem
me tocam pela metade
e o frio da pele
cala toda voz

Estes olhos que agora adormecem
sonham comigo
em dois e par
singulares criaturas por trás das névoas

Nestes olhos o lugar
caos do mundo
esboço de uma paz
inventada.


sábado, 14 de setembro de 2013

Apenas um ruído

Um ruído atravessa a noite. 

Eu ainda sei cantar horas madrugada adentro
apertando o tempo para caber em mim
apertando os olhos para caber o sono 
para nascer o sonho.

Um ruído corta o céu enquanto amanheço 
banho quente quase a vapor
depois ainda sinto o sorriso 
quando ninguém vê  
ensaio danças no vazio

passos de sol.

Entarderço sem dizer uma palavra 
som inaudível dilatando espaços.

Um ruído me atravessa
ainda sou inteira
enquanto ouço
envelhecer o tempo.




domingo, 8 de setembro de 2013

Sonho real

No meu sonho eu era você. E você me dizia que estava voltando. Que a gente ia enfim aprender a dançar. Que eu não iria fugir. Que a gente não iria fugir. Que a gente ia ser. Então nós acontecíamos. No céu, no meio do jardim, nas ruas, em todas as cidades do mundo. A gente florescia. E da flor o abraço. Depois nós íamos diminuindo, pouco a pouco. Aí meu coração ficava enorme de medo e eu calava. Cada vez mais a gente sumia no meio da multidão. Eu vi que nos tornávamos pó mas depois só enxergava estrelas, guardadas embaixo da cama porque você disse serviria para espantar fantasmas. A gente não disse adeus e o vento soprava tão forte. Quando abri os olhos era uma explosão de cores, sem estrela, sem nada. Só brilho.
sob minha pele
sinto despertar primaveras.



segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Confissões de agosto

nem alegre
nem triste
muito menos poeta.

alice,
apenas.

e isto nem é tudo.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Avenida

atravesso
um verso
sem olhar para os lados

uma vírgula
me atropela
uma pausa que não fiz

tarde demais

envelheço uma eternidade
por sobre as linhas das mãos a minha espera.

sábado, 27 de julho de 2013

Mapa

a palavra
um labirinto

escrevo
para me perder

depois
talvez
eu me encontre
tão desconhecida
que nem farei sentido.

domingo, 7 de julho de 2013

Quem é o poema?

este poema
é uma casa
de janelas fechadas.

o teto frio
não faz estrelas

a palavra
quente
neste canto escuro
silencia a vida.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Revelando Alice VII

Alice escreve como quem procura ser casa 
mas se fecha em toda pausa. 
Ela escreve como quem quer oferecer perdão,
como quem corre para o abrigo de um abraço.

Alice escreve para entender o tempo, ávido, de suas mãos. 
Ela percorre as linhas como quem busca encontrar caminho.

Às vezes, vejo puro amor em Alice.
Tem dias, porém, nada consigo encontrar dentro dela.

Alice inventa inverno para esconder a verdade 
quente 
dos seus olhos negros. 

Não diz, não faz o menor sentido.
Alice conta madrugadas dentro da noite. 
Sabe ser cura 
é a salvação contra seu próprio mal.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Marcatto

a verdade
em valsa

a mentira
não sabe o passo

eu
fora do ritmo
resisto à dança.

Pequena

gosto da poesia
que anda de ônibus
e sente a vida da janela

daquela
que sentada na calçada
deixa chover
e canta

gosto da poesia
que se faz em mim
quando nada acontece

daquela
que me rasga o peito
junta meus cacos na mão


e me sopra ao vento.

domingo, 2 de junho de 2013

Ouve

a verdade quente
na ponta da língua
diz

sábado, 1 de junho de 2013

Vontade

ser mundo
para o mundo
de alguém

ser estrada
para meu caminho
só

ser lua
dentro das madrugadas
secas horas

ser fogo
queimar
à beira de ti

eu cinza
eu gota
vapor.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Quem é o tempo? II

corta o dia
marca o corpo
endurece o sorriso
muda a pele
não quer mais ouvir

e esses olhos tão grandes
para não me ver

o tempo não cura.

arde
dói.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Pontual

a mentira
um prato cheio

e a verdade é quem mata a fome.

domingo, 26 de maio de 2013

Fica, porque é domingo

É domingo,
manhãs quentes
abraçam o corpo

onde nascemos nós
ali bem onde viramos nó

cobre o ar
do cheiro que arde
no peito aberto

a tua presença
é domingo
ancorado no tempo.

sábado, 25 de maio de 2013

Quem é o tempo?

tão cruel e bonito
tão lento e audaz
tão temido

toca minha mão.

O tempo não é Deus.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Quem sabe

Eu não te esqueci.


Mas isso foi ontem
hoje não
já faz tanto tempo
que eu nem me lembro.

terça-feira, 14 de maio de 2013

olha os dias
vê que não só tu

es
     vai

aprende ser pedra
doa-se
rio.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Motivo 8


aliança
fidelidade
Teus olhos em mim,
sorrio.

sorria, Ele está!

domingo, 5 de maio de 2013

sinto
um vazio agudo
tão grave.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

mas quando vale
o infinito desses olhos
que não me veem
e me sabem?

Gastando o sempre

o amor
pode te fazer céu
mas tem que saber o chão
tem que criar raiz

pode te conduzir em alto mar
mas tem que ser porto
tem que ancorar

em ti
em mim

o amor pode ir
mas tem que ficar
tem que fincar
sempre.


segunda-feira, 29 de abril de 2013

Primavera Num Espelho Partido, de Mario Benedetti

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente! 
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém... 
Sem ti correrá tudo sem ti. 
Talvez seja pior para outros existires que matares-te... 
Talvez peses mais durando, que deixando de durar... 

Se te Queres (Álvaros de Campos) 

Quando eu mudo de ideia de última hora tudo acaba dando errado, muito errado. O apocalipse. Uma tragédia. Sim, também sou excessivamente dramática só que prometo: acontece tudo errado mesmo. Mas olha aqui a exceção: ter escolhido ler o Mario Benedetti esse mês. Nem é primavera, mas eu a vejo do espelho. Olhos negros e miúdos, tão grande o mundo. Chego a mirá-los e o que sei cresce por entre os dedos. Pensei: para um abril doce, deixar que as palavras façam. 

Foi um belo presente conhecer o cheio de intensidades Santiago, a distante Graciela, o que tem mais cheiro de casa do que de avô, Dom Rafael, a encantadora Beatriz – impossível não se deixar apaixonar por ela, impossível! -, o Rolando Austero, de quem eu não sei dizer algo sem ser injusta, e ainda no meio deles todos ter a surpresa de encontrar as experiências do próprio Benedetti. Ao longo do livro encontramos todas essas vozes, cada uma é a história de um jeito diferente, e em muitas delas chego até a encontrar minha própria voz : 

Pode ler, como eu, todas as entrelinhas? 
Por isso eu disse há pouco que talvez esteja feliz 
e é isso que me deixa um pouco estranho. 
Estar feliz e, no entanto, não ser feliz. 
Ah, nunca imaginei que estar feliz 
pudesse incluir tanta tristeza, sabe? 

- 
Penso que todos nós, os que estamos aqui e os que estão em outras partes, 
vivemos um desajuste. Uns mais, outros menos, nos esforçamos para nos organizar, 
para começar de novo, para botar um pouco de ordem em nossos sentimentos, 
em nossas relações, em nossas saudades. 
Mas assim que nos descuidamos, ressurge o caos. 
E cada recaída no caos (perdoe-me a redundância) 
é mais caótica. 

Santiago foi preso durante a ditadura uruguaia e passa a sentir a vida imóvel, mas ela continua correndo solta lá fora enquanto ele trata de recriá-la em cada detalhe, com imagens, em palavras. É um pouco angustiante que o contato com o mundo vivo e feroz que ele deixou aconteça apenas por cartas casuais, que são suas janelas. É assim que ele consegue sobreviver, alimentando suas figuras amadas, Graciela e Beatriz. 

Quando se tem que ficar irremediavelmente parado, 
é impressionante a imobilidade mental que se pode adquirir. 
Pode-se ampliar o presente tanto quanto se quiser, 
ou lançar-se vertiginosamente para o futuro, 
ou dar marcha ré, que é mais perigoso porque lá estão as lembranças, 
todas as lembranças, as boas, as regulares e as execráveis. 
Lá está o amor, ou seja, está você, 
e as grandes lealdades e também as grandes traições. 
Lá está o que a pessoa podia fazer e não fez, 
e também o que podia não fazer e fez. 

A Graciela é distante porque não chega a me emocionar, quando poderia ter sido capaz. Confesso que desejei pensar diferente quanto aos seus sentimentos, mas não consigo entendê-la de outro jeito. Enquanto estava lendo não sentia verdade em nada sobre ela, como aconteceu também comigo em relação a Fermina Daza em O Amor nos Tempos do Cólera. Não é porque ela começa ter incerteza quanto ao seu amor por Santiago, ou porque chama isso de “não sentir mais necessidade dele”, é porque não me toca, não me convence, não encanta nem mesmo seu contato com a Beatriz. Graciela me é indiferente. E estou começando a achar que tenho criado certa aversão a personagens/vozes femininas como as dela. 

Agora já bem perto de mim, a Beatriz. Fiquei coberta de ternura todas as vezes em que encontrei a história passando por seus olhos. 


Quando acontece um apagão nos elevadores 
de arranha-céus o pânico grassa. Na minha sala, 
quando chega a hora do recreio a alegria grassa. 
O verbo grassar é um lindo verbo.
(...) 
Acho que onde meu pai está, 
na última hora da tarde deve grassar a tristeza. 
Gostaria muito que meu pai pudesse, por exemplo, 
visitar o arranha-céu onde trabalha Graciela, ou seja minha mãe. 

- 
Quando vier a anistia vamos dançar tango. 
Os tangos são umas músicas tristes 
que se dançam quando se está alegre 
e assim se fica triste de novo. 

Sim, o tempo e a distância não só podem como mudam quem amamos. As ruas mudam, os estranhos são mais estranhos, as flores nascem em outros jardins, o tempo já não é o mesmo lá. Até o azul é menos – ou mais – azul. Então a gente percebe que não fez falta, que a par de nós o mundo continua, as estações se cumprem. Eu sabia que as palavras do Benedetti teriam força para cumprir primavera em mim mesmo agora, mesmo assim. Eu só não sabia que ia ser tão... ninguém precisa estar entre quatro paredes para se sentir um exilado. 


a primavera é como um espelho 
mas o meu está com a ponta quebrada / era inevitável 
não ia sair inteirinho desse bem nutrido quinquênio / 
mas apesar da ponta quebrada 
o espelho serve 
a primavera serve

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Espelho

abril
nem pétala
qual flor?

em mim
não se cumprem
estações.


domingo, 31 de março de 2013

Revelando Alice VI

Alice foi ser um poema secreto
desenhado com palavras curtas
e sem voz,
mas eu sei o tom
que a levou.

Nada de coelhos!
Alice seguiu o vento,
queria aprender a dançar

tão menina
eu a vi
em passos singulares
fazendo desenhos no ar

quase mágica.

Lembro de gritar 
Alice, fica!
ela
nada de olhar

nem vi seus olhos
mas sei, começavam a transbordar
e escorria de mim 
a vida em gotas.

Era o meu fim?
o de Alice?
quem iria nos salvar?

quem vai ler o poema secreto de nós?

quando eu escrevo
a palavra amor
setenta e cinco borboletas
pousam na minha mão
e borram o papel
de um tom alaranjado.


A Revolução dos Bichos, de George Orwell

Cheguei mesmo a pensar que esse seria mais um livro de leitura abandonada, não é que a história seja ruim, no início inclusive, eu comecei a ler bem entusiasmada e até arranjei umas conversas bem legais por conta dele, além de uma versão em quadrinhos do livro, o que significa muito, já que eu sou o tipo de pessoa que usa livros e fones para se perder do mundo, para se esconder das pessoas, para não precisar falar, nunca. 

Os animais protagonizam a história que acontece em torno da Granja do Solar, na Inglaterra, onde os bichos propõem uma revolução que instauraria a tão sonhada liberdade, queriam o fim da submissão aos homens. A mensagem de revolução é passada por um porco, o velho Major, animal mais respeitado de toda a fazenda, e abraçada pelos outros porcos, considerados a “intellingentsia do mundo animal”. Responsabilizam-se por manter o ideal de revolução vivo e, mais que isso, por construírem o que seria a sociedade ideal, próspera, onde todos os bichos seriam iguais, ajudando uns aos outros mutuamente e livres da submissão ao gênero humano, afinal: Quatro pernas bom, duas pernas ruim.

O acontece no plano real, no entanto, não foi bem o que todos os animais sonharam ao ouvirem, naquela noite inspiradora, o velho Major. E mesmo naquele ambiente de medo e insegurança que com o tempo se instaurou na Granja, os animais continuavam acreditando que aquele tempo ainda era melhor que o de Jones e o essencial era evitar que os humanos retornassem ao controle. E então, eu que pensei em desistir do livro, até fiquei um tanto emocionada quando o cavalo Sansão foi levado da fazenda (boba, podem dizer!):

“ “Camaradas! Camaradas!”, gritavam. “Não levem um irmão para essa morte!” Porém os brutos, estúpidos, ignorantes demais para entender o que acontecia, limitaram-se a murchar as orelhas e apertar o passo. A cara de Sansão não reapareceu mais na janela. Alguém pensou em correr à frente e fechar a porteira das cinco barras, mas era tarde demais, pois logo o carroção atravessava a porteira e desaparecia rapidamente na estrada. Sansão nunca mais foi visto.” 

O livro é visivelmente uma sátira sobre o período de ditadura stalinista, o jogo das palavras é simples, certeiro, não encobre, é a verdade nua e crua mesmo, doendo a quem doer. Mesmo com toda ambientação política que o livro traz e faz pensar, o que em mim ficou foi um trecho lá do início, que chega a dar um nó na cabeça se parar para pensar muito: será essa a ordem natural das coisas? Não só o espaço político, o poder, mas as pessoas mesmo, a visão de mundo, o certo, o errado... Desculpem, mas eu não acredito em revolução alguma, nunca acreditei, e se a única viável é o amor, tem dias que mesmo essa parece impossível de acontecer, mas não deixem de acreditar também, né, quem sabe... 

“A República dos Bichos, que o Velho Major havia previsto, quando os verdes campos da Inglaterra não mais seriam pisados por pés humanos, era coisa em que ainda acreditavam. O dia havia de chegar. Podia ser mais cedo ou mais tarde, talvez não acontecesse durante a vida de nenhum dos animais de então, mas havia de chegar.”
           
           

O susto

Tocava tudo apertando os olhos bem devagar. A luz lhe fazia manhã. Sentou-se na cama, o frio do chão sentia seus pés. Seis passos até porta. Girou a maçaneta. O susto: era o amor. Sentou chorando ali mesmo. E agora, o que eu vou fazer com isso?

quinta-feira, 28 de março de 2013

a vida que a gente perde, todo dia

a lua me dava água na boca
gota a gota
pingava estrelas dos olhos

depois
nunca mais
ele acordou

e eu
tive que ir.

Revelando Alice V


tem instantes
Alice é tão feliz, tão
que eu chego mesmo a acreditar 
no país das maravilhas,


para sempre.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Convite

O vento dança
a valsa invisível
dos meus dias

Quando faz
bagunça nos cabelos
eu sorrio porque sei
é ele me chamando
para entrar no ritmo
para caber na dançar
e ir

Mas quando faz
bagunça nos pensamentos
nossa!
eu brigo, choro
fecho a janela
intento dormir

sonho sendo pássaro
dançando juntinho
ao vento fresco
que me leve
o coração.


domingo, 10 de março de 2013

Quero te ouvir

Porque em mim adormece uma oração
de grandes súplicas insuperáveis
em crescente e abundante querer
minha boca fria congela o verbo.

Tudo que acontece é cego
não me vê caindo
não me sabe pequena
como uma estrela que não se acende no céu.

Minhas mãos tateiam o nada
e querem fazer disso algo mais
sem culpa de não ser.

Meu espírito busca te encontrar
suave, dentro dos dias
a dizer meu nome cheirando paz.

terça-feira, 5 de março de 2013

Revelando Alice IV

Alice esconde a mulher no porão
eu vejo só a menina
teimosa, crescendo só.

Vai vivendo tudo bem guardado
grande, não cabe no país
espera, o acontecimento que vai deixá-la ser
completo
tudo a transbordar.

Alice não me deixa ir ao encontro
do abandono que não é solidão.

Alice me faz vítima e vilã de mim.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Melodia em dó maior

Então
se eu fosse
o barulhinho das folhas secas
que caem das árvores,
ecoaria em ti

bem ao sabor do vento fresco
principiando estações
jamais findáveis

ecoaria em ti
e só.

Motivo 7

porque não faz sorrir
faz gargalhar e doer a barriga
me tem em sol.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

A Mesa Voadora, de Luis Fernando Verissimo

Então eu também descobri que não escolho livros que me façam sorrir, é sempre mais para fazer doer, lagrimar e me levar ainda mais para dentro de mim. Quando perguntam eu respondo que gosto dos livros que me levam ao longe. Não é mentira, aqui dentro é tão distante, e eu sempre encontro um jeito de voltar.
 
Dessa vez foi tão diferente que chegou a ser estranho, eu ri muito com o Luis Fernando Verissimo. A Mesa Voadora é seu terceiro livro de crônicas relançado pela Editora Objetiva. O Verissimo nos aponta como verdadeiros predadores e mesquinhos quando o assunto é comida, tudo isso de forma divertidíssima. Mas como não poderia deixar de ser eu achei a poesia, ele diria que eu cheguei mesmo a ter fome dela, já que "Comer é uma forma extrema de possuir o que queremos".

"No outro final, os dois se despedem, nunca mais se veêm, e o espectro de uma possível sauce com trufas perfeitas para os champingnos recheados fica vagando entre as prateleiras, por todos os tempos".

É um livro de humor elegante, que me arrancou risos leves ao descobrir a delícia de ser um inventor de sabores.

" - Olhe, ele está de olhos fechados... e sorrtindo como um anjo!
- Deve estar pensando num novo sabor."
 
Recomendo muito a leitura, especialmente para você que assim como eu anda se doando e se doendo nas entrelinhas.
 
"Ou talvez seja uma história inspiradora: não confunda os aperitivos que o destino lhe serve com a vida, cedo ou tarde aparecerá o prato quente. Sei lá."

domingo, 24 de fevereiro de 2013

atrás dos dias
o corpo é cansado
a voz não ecoa
a vida é imóvel
mas você passa

atrás dos dias
toda espera é burra
a verdade envelhece
o sorriso é raso
e a mentira até convém

atrás dos dias
permaneço
sombra de mim

atrás do amor
penumbra
fogo
festa
cinza
fim.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Revelando Alice III

Alice chora o leite derramado e não gosta de café. Contempla mãos e ainda conta nos dedos. Tem os pés tão estranhos quanto a vontade de voar. Aperta os olhos para ver o todo, mas não me vê. Alice tem uma paixão secreta por janelas. Abertas, fechadas, de toda cor. Janelas de ônibus, de casas... Eu me pergunto quando ela irá saltá-las. Quando, Alice? Quero tanto te saber livre, tanto.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Dicionário X



Casa:

lugar do qual a gente nunca vai embora. Gente que dá vontade de morar. De paredes fortes com blocos de ternura, cheia de braços longos e riso frouxo. Número oito, na rua que faz verão todo dia. Manhãs de domingo. Aqui a gente sabe quem chega pelo som da chave girando na fechadura; pelo passos mais leves quando se aproximam da porta. É, o amor faz barulho, e bagunça também.

Vocês são minha casa, meu melhor lugar no mundo.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Motivo 6


Acontece o amor toda vez que piscamos os olhos, apertados; 
a cada passo nosso, em cada parada, estação; 
em cada nuvem que dissolve quando vem a chuva. 
O amor está acontecendo em cada sorriso largo; 
até na incerteza ele está, e reluz mais que o crepúsculo. 
O amor acontece em nossas mãos quando buscam se aquecer. 
Toma todos os meu braços; quer morar num só abraço. 

O amor está, principalmente, quando não aparente. 
Sorria!

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Coordenada

Dentro do meu norte
bem perdida
a sul de mim.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Vê?

É sobre voltar. Sobre entrar em casa, tocar os móveis, abrir as gavetas, reler os papéis velhos deixados sobre a mesa ao lado da janela que diz um vento pontual às cinco da tarde, quando gosta de cheirar as cortinas que dançam silêncio. É sobre andar cada centímetro guardado entre aquelas paredes e dar-se por satisfeita sabendo que conheceu todo espaço de novo, seu. Depois é aqui. A gente sabe onde termina e não é no fim. 

É sobre ligar todas as lâmpadas e ficar no escuro, no centro de tudo. O caos. 

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

A bem de mim

a bem de mim
fico
com quem está onde escolheu ser
finjo
como quem se esconde mas anseia por ser descoberto

a bem de mim
nada me encontra
e eu permaneço

solar.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

A hora dos invisíveis

Em verão acontecendo
alta noite
a cidade sempre sente frio.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Teoria Geral do Esquecimento, de José Eduardo Agualusa

E como esquecer? 

Não sei até que ponto isso me faz bem, até que limite isso já não é tão bom quanto me faz pensar, mas o fato é que eu leio – seja um anúncio na rua ou a última apostila debatida na aula - e sei que meus olhos estão ali caçando a poesia, querendo vê-la face a face, querendo a emoção e o ter a alma afagada e o ser um corpo em descanso. Só ela faz. Qual não foi a minha surpresa, esse livro é de beber a poesia com os olhos, sem piscar. 

“Uma nesga de sol ardendo ainda. E a noite, pouco a pouco, e o tempo se alongando sem rumo. O corpo fatigado e a noite de azul em azul.” 

- 

“A noite, como um poço, engolia estrelas.” 

O autor, José Eduardo Agualusa, já foi feliz desde o título do livro que, em mim, ficou ecoando dias, mesmo antes de conhecer o mundo dentro de suas páginas. Teoria Geral do Esquecimento... Aprender a esquecer. Então é tudo apenas hipótese, suposição? Esquecer, tão simples, não mais deixar passar pelo coração. 

A história pode até parecer comum, mas foi escrita de forma que, primeiro, inquieta por não contar tudo de um só plano, e a gente pensa que o passo dado anteriormente pode ser esquecido. Não tem acaso. E o destino? 

Ludovica Fernandes Mano é apenas Ludo, uma portuguesa morando em Angola, que antes de não gostar de enfrentar o céu, tem mesmo é o medo de enfrentar a si própria, e aqui eu lembrei do Affonso Romano de Sant'Anna em Tempo de Delicadeza: É estranho, mas, às vezes, o oponente, o mal, o invasor, o bárbaro, terminam por conferir sentido às pessoas e comunidades. O desnorteante é descobrir que o mal às vezes é imaginário, o oponente está dentro de nós e os bárbaros não virão. 

“Até a luz me é estranha. 
Um excesso de luz. 
Certas cores não deveriam ocorrer num céu 
saudável.” 

Ludo já é prisioneira em si muito antes de – após ser esquecida por Odete, sua irmã, e Orlando, seu cunhado, no apartamento no qual moravam - erguer aquela parede separando-a do resto prédio, do resto mundo, durante 28 anos. Esquecida, não gosto de pensar que eles a abandonaram em meio àquele caos, isso é uma das poucas coisas que não fica claro para mim no livro. 

Ludo abre espaço em nós. Cresce em rio, abre-se mar. Faz doer. Faz chorar. Paralisa. Traz angústia e sorriso. As sensações do mundo dela atravessam o nosso e ficam. Impossível conhecê-la e ficar imune a isso. 
“eu ostra cismo
cá com minhas pérolas 
. 
. 
. 
cacos no abismo” 

Não se deixem passar sem essa história que não é a única nesse livro fascinante. Impossível esquecer. "Esquecer é uma rendição".



segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Medida satisfativa

para o amor
urgente
tutela antecipada!

O Amor nos Tempos do Cólera, de Gabriel García Márquez

Para o meu primeiro livro do Gabriel García Márquez, depois de uma leitura não finalizada de Cem Anos de Solidão, sem dúvida, eu não podia ter começado melhor. O Amor nos Tempos do Cólera é uma história que flui, nos envolve, nos põe a sentir. O livro conta em linhas muito bem escritas a vida de Florentino Ariza, eterno apaixonado por Fermina Daza, que se casa com Juvenal Urbino. Entrelinhas de amores, recheado pela história do tal grande amor que... existe!, existe?, existe... 

“Não se atreveu a voltar a cabeça, porque estava sentada entre o pai e a tia, e teve que se dominar para que não percebessem sua perturbação. Mas na desordem da saída sentiu-o tão iminente, tão nítido no tumulto, que uma força irresistível a obrigou a olhar por cima do ombro quando abandonava o templo pela nave central, e então viu a dois palmos de seus olhos os outros olhos de gelo, o rosto lívido, os lábios petrificados pelo susto do amor. Transtornada por sua própria audácia, se agarrou ao braço da tia Escolástica para não cair, e esta sentiu o suor glacial da mão através da mitene de renda, e a reconfortou com um sinal imperceptível de cumplicidade sem condições. Em meio ao estrondo dos foguetes e dos tambores, das lanternas coloridas nos portais e clamor das multidões sedentas de paz, Florentino Ariza vagou feito um sonâmbulo até o raiar do dia vendo a festa através das lágrimas, aturdido pela alucinação de que era ele e não Deus que tinha nascido aquela noite.” 

O amor acontece audível ainda quando parece parado no espaço. Acontece. É imóvel, mas desliza sobre o tempo. Para Florentino Ariza foi assim que existiu, fincou e criou raízes tão profundas que se espalharam dentro de seus cinquenta e um anos, nove meses e quatro dias. 

Em O Amor nos Tempos do Cólera eu me vi apaixonada não pelos personagens, nem pela história em si, e sim por esse sentimento que nascia entre o Florentino Ariza e sua deusa Corada, um amor que descobria a direção dos ventos para que pudesse ser ouvido, um amor com forma, feito desenho lírico que cabia em linhas infinitas de noites luzentes. Mas foi também em O Amor nos Tempos do Cólera que se dissolveu, finalmente, toda a figura do herói romântico grudada em mim. Florentino Ariza está longe deste quadro emoldurado do amor e, confesso, ficava um tanto decepcionada ao sabê-lo com outras mulheres, cheguei mesmo a duvidar que fosse amor o que ele julgava sentir por Fermina Daza. 

“Esta certeza esmagadora aumentou a ansiedade de Florentino Ariza, que no auge do gozo tinha tido uma revelação na qual não podia acreditar, que se negava mesmo a admitir, e era que o amor ilusório de Fermina Daza podia ser substituído por uma paixão terrena.” 

Ela, por sua vez, em nenhum momento chega a me convencer. O seu sentimento por Florentino Ariza – e mesmo pelo Juvenal Urbino, que lhe tinha um amor alegre e diário - sempre me soou vago, sem raiz, por seus esforços aquela relação nunca daria frutos. O seu amor parecia uma flor de ontem, flor que o Florentino Ariza fez nascer no amanhã. Fez florescer no presente, e cuidaria por toda a vida. 

“Tinha que ensiná-la a pensar no amor como um estado de graça que não era meio para nada, e sim origem e fim em si mesmo.” 

A beleza deste livro me deixou muda. Cada palavra foi desenhada para ser exatamente onde está e nos faz sentir pele, dor, olhos, mãos, cheiro, amores. A história nos leva por tantos caminhos sem nos deixar perdidos, nos conta miudezas, nos encontra, nos descansa num ponto sem fim: Amor.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Eu te amo pelo verso de mim

Aline é a pessoa mais parecida comigo que conheço, só que do lado do avesso. É bonito que seja assim porque sei mais quem somos, assim sei de ti e até me reconheço. Aline é alegria e brincadeiras pela casa, riso solto. Aline é despreocupação, é simples e, embora eu saiba que o simples nem sempre é fácil, é muito fácil gostar de você. Amar.

Aline é de se doar como ninguém, eu sei doer em cada canto de mim. Ela parece não saber da sensibilidade em seus olhos de menina e vai ao mundo sem armaduras.

Eu só caibo em ser Alice, e Aline cabe muito bem em mim.

Para Aline, minha metade menor maior de mim.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Poema para ganhar São Paulo

Eu, que nunca te toquei,
sei que existes quente
entre estas avenidas
sem marcar distâncias

sei do cheiro líquido
dos dias cinzas
que pulsam vidas

sei das madrugadas
longas
de quem nunca esteve.

Tenho São Paulo em mim
nos abraços
que ainda perecem na espera
no céu que cresce
e se espalha
fazendo ponte de azul
entre o aqui
e o infinito.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

quero a palavra
vazia
repartindo meu corpo
em partículas invisíveis

quero a palavra sem voz
gritando meu nome

quero a palavra inteira
que não caiba em mim
que me transborde
que me espalhe
que me leve

leve...

quero a palavra
crua
cheia de verdades
doendo
a quem doer

quero a palavra
não a mim.

Cheia


luz amarela
sorri em teus olhos
eu que de mim estou cheia
já não espero
vou.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Alguém ama Marina

Talvez ela nem imagine, mas alguém a ama e gritou para quem quisesse ler: MARINA TE AMO. Assim mesmo, em letras garrafais! Um amor enorme ali aos olhos do mundo... quem poderia contar dos dois? Desejei sabê-los. 

Por um momento eu quis ser Marina, quis estar naquela paisagem, criei molduras, escolhi cores, descansei naquele sonho de amor como se... mas eu acordei Alice. Marina ficou no muro para fazer o mundo fantasiar um amor que é só seu.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Palavras do coração

Tenho uma artéria lírica
quando ela se rompe
sagram poemas de mim.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Motivo 5


te ver crescer no mundo
te ver crescer em mim.

te amo!

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Uma vida, mas se parece com um poema

Preciso respirar ao ler cada palavra para que cada uma ocupe seu lugar em mim. A pulsação dos pontos, a respiração dos medos nas vírgulas, a textura das frases soltas que de longe não fazem qualquer sentido, fazem sentir. Uma vida e tem tanto a me dizer, mas não ouço, insisto com a palavra que não acredita, com o verbo que não age, insisto. O tempo corrido, as horas marcadas, os minutos suaves do não-dizer, o cheiro incontestável do sorriso que se exala por dias entre os objetos que enfeitam a casa, o livro que nem foi lido ainda, a carta que espera ser postada.

Uma vida aparando as arestas das rimas desfeitas. É um tanto aterrorizante ver que indiferente ao mundo, a par da multidão que nem se esbarra lá fora, aquele meu pedaço de vida seguiu sem mim. Continua. Que susto me virá levar outra vez? Quem me trará de volta? A tua vida ou a minha?

Uma vida, mas se parece com um poema que o coração suplica para ser escrito. Tudo me inclina a dizer adeus enquanto os olhos proclamam a paz de ficar.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Estás a trair o poema

Estás a trair o poema
toda vez que me esconde
nas tuas linhas curvas
e não desenha meu rosto
não me põe sorrindo

ficarão contra ti
todas as palavras que ocultas do verso
rebelião das letras

farão greve de ti a meu favor

serei salva do teu fim
serei posta pergunta
que não responderão

hei de ficar
acontecendo
hei de partir
sendo ainda parte de ti.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Lugar de ficar

Olhar o mar é um exercício de amor, 
as retinas derretem de afeto 
com o brilho do sol sobre o azul em tons variados de vida. 

Não há erro em querer ficar só 
e sentir o mundo prolongando o que é vital dentro de nós. 

Não há erro em partir 
levando nenhuma parte 
à uma parte qualquer.

domingo, 23 de dezembro de 2012

Preâmbulo em mi menor


No começo de mim eu não fui palavra. 

Não fui verbo
nem oco
nem breu
nem inteira ou grande. 

No começo de mim eu já não era 
e sentia saudade 
e dizia adeus 
e queria só o que é.

No começo de mim
a liquidez
eu me derramava como chuva
caindo de nuvens pesadas.

Não fui azul
nem estrela
nem pó.

No começo de mim eu existia
sem acontecer.


Solver

tem um mar dentro de si

quando a maré sobe
olhos tão salgados.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Faltou ar, sim, diversas vezes
mas estou aqui agora, vê?

afinal, o que é
uma falta de ar boba
diante da falta de amor?

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Diálogos [João e Marília] XIV

- É preciso que você decida ir ou ficar, fazer algo. É preciso.
- Você fala como se dependesse de mim, como se eu, apenas, tivesse que dizer. Sim. Não. Mas e você? O que você sabe sobre o amor, João? O que você sabe?
- A verdade.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Entrelinha

usava a palavra
como escudo

ele despiu o verso
letra por letra

ali estava ela
encolhida
chovendo sobre si.

domingo, 9 de dezembro de 2012

I

como será
que por teus olhos
a vida passa?
- ou fica?

como será
que em teus olhos eu passo?
- ou permaneço?

como será?
me diz!

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Temporal


afundaria o chão pisando assim com tanta força
ah, afundaria sim!
não teria mais chão
ou viveria suspensa
ou caindo
caindo
caindo...

depois
subir em nuvens
chover o mundo.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Quero mais o piano que uma mão para segurar


ecoa o mundo 
em mim
e então eu sei
que estou

-

acalenta minha mãos
embala meus sonos
meus sonhos

-

pleno
ávido
em cada extensão
do que me faz ser
inteira
ali.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Marítimo

Em rota
líquida



Corre 
um rio em mim
sem desaguar


quando eu mar
oceano.

Motivo 4

Gente que tem
o abraço feito casa
acolhe
é lar.
Sorria!

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Doa-se

a palavra
que escrevo dói
aguda

então silêncio
mas eu sinto muito
grave.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Permanência

não te inventa
em distância

de ausência
a palavra
já está cheia

e eu só
transbordo.

sábado, 24 de novembro de 2012

Varanda

na rede
entre os versos
adormecem vidas.

e eu só
descanso em Ti.

domingo, 18 de novembro de 2012

Poema


começa com
um
eu te amo

tanto

então
desenha-se
o ponto

e
é
o fim

apenas

porque
depois do ponto final
é que a vida
continua

em silêncio.

sábado, 17 de novembro de 2012

Baldado tempo

Inutilmente
os ponteiros giram
cirandando as horas
carregando os dias
descompassados
dias largos

fartas saudades
dissolvem
memórias azuis de quem não está

só eu
fico
acontecendo

longe o tempo
imóvel
sobre minhas mãos.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Uma nobreza que não me cabe

a máquina de fazer espanhóis - valter hugo mãe


e eu não posso 
salvar 
nem a mim mesma



sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Intermitente

Pensa enganar
nos versos
as marcas de fim

nasceu para
saber excessos

é oca de si.

domingo, 9 de setembro de 2012

Ir embora


Um dia acordei e era um amor tão grande que não cabia no corpo, nem comigo, quentinho, embaixo do cobertor cheio de cores que me aquece durante o inverno. Tão grande que não coube na bolsa, não coube nas mãos, não me viu chorar.

No meio da manhã esse amor cresceu tanto que não coube na distância, nem na folha em branco. Não ficou em nenhuma palavra.

Mas era um amor tão líquido no final da tarde, que cheguei a molhar os pés e refrescar o rosto. Suave, conheceu minha pele respirando medo.

Foi um lampejo à noite, o amor. De repente, num clarão, eu me descobri escuros. 

Era uma amor tão grande que deixei ir.



terça-feira, 4 de setembro de 2012

Quem lutará?

Era ele sim
magro, tão fraquinho
mal conseguia ficar de pé
cego
sem voz

dentro da noite
o amor
ainda respira
um nome

sujo.

título: skinny love - bon iver

sábado, 1 de setembro de 2012

Abraço

Ainda me assusta um pouco a força delicada do que temos. Eu não sonhei te conhecer, mas quem sonhou alinhou bem nossos caminhos, até que o teu coubesse certeiro no meu e pronto: encontro. E depois desse primeiro vieram outros tão inesquecíveis que eu me nego a aceitar esse agora com lonjuras doído de saudade. 

Você só poderia ter nascido mesmo setembro, porque anuncia alegrias. Anuncia tempo bom, primavera, cor e flor numa só pessoa. Ainda me assusta um pouco pensar saudade ou nos perdemos, mas me aquece pensar você sorrindo sol, como música. 

Quem sonhou o nosso encontro deveria ter estrelas nos olhos. É, eu gosto de te pensar presente de Deus e, assim, sem desencontros.

Feliz vida, Rafa! E sabe: eu te amo você.


Para Rafaela Toffolo, meu sorriso de sol.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Passado(R)

Olha,
se for
amor
não importa.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Rota

Se fazendo rio
se encontra
o mar.