quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Dicionário VII

Sorrir:

Sorrir é um jeito de amar
nascendo em flor.
Sorriso é um jeito de amor
que alarga o coração.
Eu só: rio por ti.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Dicionário VI

Esperar:

Te esperar é morrer
um pouco em todo hoje
só pra nascer contigo em amanhãs.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Desvio

E para que a dor
traga sempre algo de bom,
há que não se permitir
o adormecimento dos afetos da alma,
há que se permitir
o som do outro
reverberando em nós.

Diminuto

A poesia estreita
 cala o choro
revira o corpo
anseia por ti.

domingo, 25 de setembro de 2011

Partes para então voltar


Nós só temos palavras, eu disse uma vez, lembra? Só palavras. Agora eu vejo você sair assim às presas sem levar nada e deixando tudo. Tudo! Você me deixa aqui de mãos atadas, vazias, frias, fracas. Porque eu não posso te alcançar com elas. Se eu estivesse do teu lado ficaria calma tendo só teu silêncio. Mas estando aqui não! Estando aqui esse teu silêncio é só angústia e eu não aceito. Respeito, sim, mas não aceito. Aí você vem à mim com mais lonjuras e mais silêncio e eu não posso fazer nada? Isso é que triste. Isso que faz em pedacinhos a alma encolhida nesse espaço, imóvel, assistindo tua partida. Dói. Será que você pode entender que dói te ver ir? Assim, desse jeito confuso banhando em sal, em lágrimas, em cansaço.

Essa solidão toda que acreditamos em nós é superficial, somos maiores. Você tem que acreditar, temos que acreditar. Do contrário me diz como a gente vence a distância? Como a gente pode existir nesse caos? Confia que seremos sobreviventes nesse desastre do tempo sobre nossas cabeças porque há sobre elas também um céu, nosso espaço, ponto de encontro. Vai, não esquece isso. Não anoitece logo agora que as flores voltam a ter cor e eu preciso te contar do que acontece por esses lados. Não continua caindo nesse buraco negro sem fim, deixa eu te puxar daí, deixa? Há caminhos aqueles que existem apenas em nós, mas não vai por ele tão só, não me deixa também ir tão só... nessa procura vã.

Meu coração inteiro só quer que você não tenha medo do que existe aí dentro. Sei que tem muito além de força e esperança. Só me promete que volta melhor, clara e luz, no lugar certo em ti, sem doer. Não sufoca. Não deixa morrer. Não se deixa ir pra tão longe. Por favor. Por mim. Por você.

"Cuide-se bem
perigos há por toda parte
e é bem delicado viver
de uma forma ou de outra
é uma arte como tudo..."

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Pequeno poema de grande Amor

Quando os meus olhos te viram
pela primeira vez
os teus dormiam em sono de paz.
Eu procurei te ter nas mãos
e eras ali meu eterno peso de céu.

Quando os meus olhos te viram
pela segunda vez
bailavas pela casa como brisa urgente de primaveras,
eras ali nossa flor e jardim.

Quando os meus olhos te viram
pela terceira vez
os teus me seguravam
com a maior verdade que já ouvi
e cantavam sons daquele teu amor, assim:
sem explicação.

Desde a primeira vez
meus olhos sabiam que não faz a menor diferença
esse amor ter começado fora de mim.

Quando os meus olhos te viram pela primeira vez
o coração já sabia que era pra sempre.


Para Elícia Camilly, minha cor feliz.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Pormenor

Tu me ocultas
no peito
por assim achar seguro.
Ponho pedras sobre ti
por assim querer curar-me.
Somos um acidente
no tempo.



segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Allegretto

Verei
você
vindo
veloz
voraz
vencido
valsar em vão
a sóis.



Amor de um

Depois daqui é dor.
Quem ousará subverter as regras
saltar altos muros
atravessar longas pontes?

Correndo em vão por aí,
não acho minha alma
não sei onde a perdi
não sei se quero encontrá-la.

Deveria haver nesse silêncio
uma voz que me soprasse
enfeites no coração.

Vem me convencer
das nossas verdades
vem me impedir da fuga de nós: não me deixa ir.
Vem com teu verão
dizer à esse inverno
que há tempo de sermos.

Elevação

Lá,
onde mora a mulher em ti
tem mais força do que supões
mais viço
mais pele em flor,
tem mais estrada que cansaço.

Entre você, menina
e teu eu-mulher
há os mistérios
que precisas descobrir.

sábado, 17 de setembro de 2011

Re(verso)

Um gesto meu
caminha
ao encontro de nós

Somos uma questão
de verbo: acontecer

São nossos olhares
que se abraçam
como estátuas

Por ignorar o tempo,
as dores
e lágrimas
dissolvem-se no ar
ao simples toque da minh'alma
na tua.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

mi ré: dor

O vento continua balançando muito as janelas. O céu é azul e até tem sol. Mas o vento insiste em anunciar que o tempo não está bom lá fora. Não me atrevo a invadir esse território desconhecido. Sabe-se o quê fazer, para onde ir. Tem saída. Eu prometo que vou doer menos em mim. Mas promessas são feitas para não serem cumpridas.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Decreto

Artigo único:

o amor não é suscetível de confirmação, 
nem convalesce pelo decurso do tempo.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Compasso binário

Sete bilhões de pessoas
entretanto
entre tantos
você.

domingo, 11 de setembro de 2011

Canção do amor primaveril

Não quero que seja tumulto
maré alta destruindo avenidas.
Mas quero que seja forte
alcance-me aqui.
Quero que seja a lente
através da qual eu veja o mundo
enfeitado em cores.
Quero o voo
se o pouso for em ti.

domingo, 4 de setembro de 2011

Não há como alforriar-se da solidão
em qualquer caminho
será ela a última a nos abraçar
beijar nossa face
sussurrar em nosso ouvido
o canto das estações que se findam.

Singular

As palavras me encaram do papel:
todas riem de mim
dessa falta de precisão.
O que se derrama aqui
não traz calmaria
e no instante que passa
já não sou.

Amanhãs que não chegam
recriam dores
asperezas dos dias.
No espaço que não se preenche
a plenitude que não me alcança
é o sentido
de ser exceção.

Canto ao recomeço

Te escrevo para contar setembros. Futuro, claro, mas que já espero de portas abertas porque inspira ares frescos. E esse vento que bate na nossa cara enquanto atravessamos a rua, que faz despencar as folhas pesadas das árvores, esse mesmo vento vai trazer equilíbrio aqui pra dentro dessa casa: coração. Porque agosto deixou tudo revirado, sem espaço para mim, sem espaço para você. Não tenho planos ainda, sim, todos voaram pela janela naquela dia de tempestade, e ninguém percebeu que não era apenas chuva, enchente, rios de nós. O céu rasgou-se inteiro sobre nossas cabeças. Restou azul e destruição.

Te escrevo sentada sobre os escombros na esperança de ver derramado sobre esse papel alguma coragem. Tem que existir em algum lugar. Um estalo e pronto: nascimento, eu começo a viver. Sem caminhos certos, sem culpa. Eu quero tudo o que agosto me roubou, e a minha vingança serão flores e você, perto, dentro em mim.