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terça-feira, 30 de junho de 2020

Todo mundo: universo

Eu amo escutar crianças. Criar os contextos para que essa escuta seja de presença atenta nem sempre é fácil e exige muito mais que eu cresça para a altura delas do que elas diminuam para a minha.

"O universo é todo mundo compartilhando", disse T., naturalmente, no meio de nossas investigações como se não soubesse que sua fala guarda a complexidade da vida. Ela sabe. Crianças têm as explicações mais filosóficas sobre o existir, estar e ser humano.

Eu amo escutar crianças e foi a escola quem me ensinou isso. Não durante os 13 anos enquanto eu era a criança, a adolescente, a jovem. Não aprendi com a Universidade em nenhuma das duas vezes, nem mesmo buscando licenciar-me para sentir, assim, que estaria liberada a falar sobre educação. Foi a escola quem me autorizou a isso.

"O universo é todo mundo compartilhando", disse T. dividindo comigo a grandeza de crescemos no espaço cujas paredes não limitam nossa curiosidade e nos levam para fora. Para além das portas investigamos formigas, imaginamos quem está do outro lado, esticamos o horizonte, fazemos da cidade quintal possível.

Eu amo escutar as crianças. A escola da infância foi quem me possibilitou isso, sabemos sua função? Ela existe para nos servir enquanto não temos com quem deixar nossos filhos? Para economizarmos porque “manter uma babá é mais caro” e lá o cuidar está sob supervisão? A que serve a escola da infância? A quem serve?

"O universo é todo mundo compartilhando", disse T. na escola, que é todo esse universo. Não dá para pedir menos porque nos é caro construir juntos o percurso na vida de quem vale toda nossa vida. Não dá para aceitar menos ou só amor, porque é trabalho, é tempo, é urgente e presente.

O universo é todo mundo compartilhando. Agora. Onde a escola está por um fio e a infância impossibilitada de escuta.

domingo, 1 de abril de 2018

e desde então, nada mais

ontem à noite raspei o tacho da panela
uns versos furados levantaram-me as
pálpebras minutos antes de Morfeu
render abraço

sorri como quem reencontra
desconhecidos em nova intimidade

fui entregue ao caos.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Moro bem

sou minha própria casa
ninguém me queira entrar trocar móveis de posição
comprar espelhos para expandir os ambientes ou
para que eu a mim veja melhor se
o que não sou é o que
jamais vai conseguir sequer pular as janelas
não vai dá para ser outra
senão eu
dentro de mim
todo este interior e
vasto horizonte.

domingo, 17 de setembro de 2017

dança no vazio

este ser inteiro que
por meio de mim valsa
nada é além
do espaço que carrego
entre eu e o que
não sou

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Desconhecido

este ser, você diz
incompreensível
misterioso
fraco, eu digo
faca!
faça valer e
sê livre
este ser, você diz
objeto
abjeto
coisa
tralha
diacho!, eu digo
este ser é
humano
miseravelmente
ser humano.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Teu outro

Essa pele
que me separa do mundo
e de ti
essa pele
que me divisa
esse pedaço limitado
essa cor nenhuma
esse abissal esconderijo
esse ainda
não sou eu.


quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Cuidado, é uma mulher!

O sangue fervia enquanto
ele julgava me ofender
pela natureza do que sou
não aceito a sina
não relevo a ignorância
É uma mulher, sim
na rua
cuidado!

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Eu me navego

Vem beber do meu coração
poço fundo
passo profundo e vejo
ressuscitar
sombras potentes
das formas do que
sou
Não estou à mercê
de canetas e papéis
Sento, escrevo
ou saio e vivo
não escolho
não peso consequências
não peço permissão
nem pergunto quem virá
Chego, sento
ou escrevo e me afogo
não quero ser salva
não interpreto sinais
não invento senhas
Eu me arranco um pedaço
é assim
que dou de comer aos
poemas que dormem comigo
abre espaço
É desse buraco no peito
que transbordo
sangue
silêncio e
sal.

sábado, 31 de dezembro de 2016

Ainda irei dançar balé
sobre as teclas e
sem plateia
serei eu mesma a aplaudir
Corajosa, também irei cantar
O que seria?
Um canto orquestral
com sinuosas texturas melódicas
cores graves que do alto
despencariam
soprano, minha voz
ecoaria sem cor
aguda
até teus ouvidos dizendo:

é chegado o tempo.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

A ti faria mapas que
indicam a menor distância entre
quem escolheu a vida e
aquele que a recusa em
delírios temporais
mas eu, veja
não tenho o menor
senso de direção
Gostaria mesmo é de
conseguir me equilibrar na vida
como faço no
meio-fio das calçadas.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Estou vestindo poemas porque
nenhuma roupa me cai bem o
que não chega a ser verdade com
eles mas são os únicos
que ousam me abraçar agora
Vou descalça porque assim sinto
o volume do chão
nos pés
líquidos os caminhos os laços e
nós
sempre tão cheios de nós.

domingo, 27 de novembro de 2016

Há pouco tempo
fizemos reforma em casa mas
nas paredes do meu quarto, apenas aqui
tem umas fissuras
que vão do teto ao chão
Observei hoje pela manhã
são diagonais ininterruptas
algumas se cruzam
outras somem sem rastro comum
entre a fenda no meu coração e a
mão que o afaga estuda o toque
há um
não
querer
curar-se.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Não estou pedindo respostas

Mas como viver no mundo
quem se deslumbra com
qualquer sinal de afeto?

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

na madrugada ligo a máquina
sabão em pó amaciante
modo
extra baixo
dia a dia
enquanto escrevo
lavo roupas
lavro poemas
todos para estender sob
o sol da primeira manhã

vai ter cor.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Ainda serei maratonista

Enquanto corro
sinto
talvez eu possa voar
um dia
leve escorrendo de mim
o vento a me abraçar
o céu cantando estrelas
a música da rua
gente a passar
nenhum esbarro
encontro ainda
mas como é bom
viver.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

O vento canta
madrugada adentro
ao pé da minha janela mas
eu não sou capaz de traduzir uma nota
sequer posso abri-la deixá-lo entrar
dançar comigo
Os sinos tocam e ressoam por
toda cidade a hora dos que
                             [rendidos
não podem estar e
por isso figem dormir
mas estão pesados demais para
sonhar.

sábado, 12 de novembro de 2016

Empresto minha pele ao poema
que escreves
Dói-me a ponta do lápis marcando caminho
desenhando formas que fogem das minhas
Atravessam-me pontos vírgulas
vidas
misturadas ao sangue correm por mim
linhas e linhas que não aderiram a palavra alguma
É por isso que falto e
se grito não me ouça até
que eu possa cantar.

domingo, 6 de novembro de 2016

Mesmo este poema, não
ele não sabe de nós
das palavras que se costuram
livres
dos verbos que seguem
acontecendo

Mas agora, não
quem vier gastar um tempo
com minha poesia sairá
vazio
ou

cheio de mim.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Que é isto de ser poeta?

Vou pedindo socorro
Estas palavras aqui comigo
estão rindo na minha cara
juro!
Sabem que estou perdida sim
É difícil dizer alguma coisa
sobre estar ou como sair

Matei de fome
o poema
vesti-me de preto
chorei nas linhas
breve
terra sobre o túmulo

aqui estou eu
livre de
mim.

domingo, 30 de outubro de 2016

Um rinoceronte ou um camundongo?

Sim
não tenho certeza estou 
agora abraçada a pontos de interrogação 
quietos procurando sentido
Risco equações insolúveis
em papéis sobre a mesa 
em agonia sobre as letras
tento me distrair 
sair sozinha 
rir 
ir 
Pouco é viver e só
acho que vou diminuindo
de novo estou tomando camundongos por rinocerontes.