terça-feira, 30 de junho de 2015

Condicional

quem bom
hoje vou dizendo sim sim sim
pra tudo
foi muito difícil desligar depois
sair chorando não explicar
eu volto
conta melhor como existo pra isso
essa vida grande inventada
hoje é sim pra tudo
inclusive pra você
se voltar.

domingo, 28 de junho de 2015

Hoje: não

hoje não virá poema
uma pena
                    voa

corta o céu dominical.

sábado, 27 de junho de 2015

Cartas perdidas III

As cartas escrevem sobre ti
todas
estamos a falar com tanta intimidade
de quem nem conhecemos
mas disso eu dou conta
construo pontes com canetas
atravessámo-las com letras miúdas
crescente ao longo das folhas
encho linhas e linhas
com teu nome revelo Deus em mim
hesito falar da chuva batendo insistentemente
contra a janela
e por falar de amor
onde encontro alguém que dê jeito
naquele vazamento mágico
escorrendo
pelos cantos?

sexta-feira, 26 de junho de 2015

meu coração não faz eco
a vida, sim
essa ressoa de todo lugar
até as paredes das casas
pelos lugares que não conheço
espaços que não me acolhem
tudo pulsa e exige de nós
a vida, sim
ascendente em linhas que se cruzam
pouco importa o infinito
quando agora segue e eu
não estou lá
a vida, sim
essa respinga em quem não tem culpa
e vive como se tivesse que crescer
para mostrar "aqui, olha onde estou"
a vida, sim
meu coração não faz eco.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Um poema novo
preciso ler no silêncio
poucos ruídos até tolero
como a porta batendo no quarto ao lado
os carros apressados embaixo da minha janela
os passarinhos cantantes da espécie que voa
escrevem partituras públicas nos fios
música que ninguém quer tocar

poema novo
quero te ver andando avenidas
com pausa para cafés conversas abraços
para ganhar o mundo com teu corpo
não-palavra
linhas nuas de pontos e
fins.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Só agora me dei conta que passei a tarde escrevendo
mas não consigo ler Virginia ainda
não sei,
a poesia virá quando quiser
o tropeço
todas as pedras
pedros
pérolas
os cadernos das crianças
seguem aqui ao meu lado
tantas histórias
eu poderia mesmo escrever um livro
ser a rainha das nuvens
porque eu estou sempre falando de você
de como você lava o cabelo
se come feijão ou prefere o alface verdinho da salada
mas eu não posso ficar esperando
a vida corre com teus sapatinhos mágicos
sei que irás me emprestá-los
a próxima maratona vem aí, você sabe
nem é o pódio
pela vontade de chegar
pela ânsia em fugir
virá a poesia
o perdão
não posso ficar esperando
mas não consigo ler Virginia ainda.

entre dedilhados
na madrugada
toquei a música inteira
mas não toquei você
nem um fio de cabelo
branco
no centro da cidade luz acesa
cortinas cerradas
quem passa na rua nem vê

amor vai lá dentro
desse quarto iluminado.

terça-feira, 23 de junho de 2015

a TV fora do ar
pés descalços em ação
ciranda meninas
gritaria no portão

campainhas a tocar
matemática materna
infinita até três
- passa aqui, menino!

tindolê salve eu
salve você
salve a infância
que morreu na porta de casa.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

era grave
acorde!
todos gritavam
ao seu redor
daquela altura
era grave:

amor em frequência aguda
devorando seu coração
é agora porque vou
Marília
acaso virá
o destino
sem resposta
do alto de tua janela
sorrir pra mim?

domingo, 21 de junho de 2015

Ano novo foi ontem

no aniversário
sem bolo
sem vela
os bracinhos entrelaçados
meio frouxo
meio apertado
o tempo
envelhece
depressa estou a contar
rugas de risos.

sábado, 20 de junho de 2015

Mais uma vez

checo e-mail e caixa postal
umas vinte vezes
no dia vinte não imagino
nada mais interessante do que
te ligar e ter certeza
você esqueceu.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

que faço com ela?

essa fome
que de mim se alimenta
no vai e vem dos dias se sustenta
come fome
e poema

o coração

mais que a barriga
devora 

o vazio.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

eu me perco
nessas redes
sem nenhum lugar
para deitar
descansar minhas costas
pesadas da solidão dos dias.