Tudo canta nesta manhã aparentemente igual. As raízes das árvores abraçam a terra com o mais primitivo amor, e se alimentam desse amor e se fortalecem com esse abraço. As cortinas querem voar pela janela, querem o alto, cantam o voo. Os pés acordam para os caminhos cansados da noite que vagou pelo tempo insone. Os olhos procuram reconhecer o semblante da pintura sem foco no espelho. Tudo canta nesta casa desabitada, todas as portas esperam ser abertas para o lugar que ainda não conhecemos.
Nesta manhã tão igual o corpo é o mesmo, a saudade do tamanho exato dos braços abandonados. Nesta manhã meu canto é mudo, minha voz se esconde com medo do som das palavras que, pronunciadas, tornam o sonho real.

