domingo, 31 de março de 2013

Revelando Alice VI

Alice foi ser um poema secreto
desenhado com palavras curtas
e sem voz,
mas eu sei o tom
que a levou.

Nada de coelhos!
Alice seguiu o vento,
queria aprender a dançar

tão menina
eu a vi
em passos singulares
fazendo desenhos no ar

quase mágica.

Lembro de gritar 
Alice, fica!
ela
nada de olhar

nem vi seus olhos
mas sei, começavam a transbordar
e escorria de mim 
a vida em gotas.

Era o meu fim?
o de Alice?
quem iria nos salvar?

quem vai ler o poema secreto de nós?

quando eu escrevo
a palavra amor
setenta e cinco borboletas
pousam na minha mão
e borram o papel
de um tom alaranjado.


A Revolução dos Bichos, de George Orwell

Cheguei mesmo a pensar que esse seria mais um livro de leitura abandonada, não é que a história seja ruim, no início inclusive, eu comecei a ler bem entusiasmada e até arranjei umas conversas bem legais por conta dele, além de uma versão em quadrinhos do livro, o que significa muito, já que eu sou o tipo de pessoa que usa livros e fones para se perder do mundo, para se esconder das pessoas, para não precisar falar, nunca. 

Os animais protagonizam a história que acontece em torno da Granja do Solar, na Inglaterra, onde os bichos propõem uma revolução que instauraria a tão sonhada liberdade, queriam o fim da submissão aos homens. A mensagem de revolução é passada por um porco, o velho Major, animal mais respeitado de toda a fazenda, e abraçada pelos outros porcos, considerados a “intellingentsia do mundo animal”. Responsabilizam-se por manter o ideal de revolução vivo e, mais que isso, por construírem o que seria a sociedade ideal, próspera, onde todos os bichos seriam iguais, ajudando uns aos outros mutuamente e livres da submissão ao gênero humano, afinal: Quatro pernas bom, duas pernas ruim.

O acontece no plano real, no entanto, não foi bem o que todos os animais sonharam ao ouvirem, naquela noite inspiradora, o velho Major. E mesmo naquele ambiente de medo e insegurança que com o tempo se instaurou na Granja, os animais continuavam acreditando que aquele tempo ainda era melhor que o de Jones e o essencial era evitar que os humanos retornassem ao controle. E então, eu que pensei em desistir do livro, até fiquei um tanto emocionada quando o cavalo Sansão foi levado da fazenda (boba, podem dizer!):

“ “Camaradas! Camaradas!”, gritavam. “Não levem um irmão para essa morte!” Porém os brutos, estúpidos, ignorantes demais para entender o que acontecia, limitaram-se a murchar as orelhas e apertar o passo. A cara de Sansão não reapareceu mais na janela. Alguém pensou em correr à frente e fechar a porteira das cinco barras, mas era tarde demais, pois logo o carroção atravessava a porteira e desaparecia rapidamente na estrada. Sansão nunca mais foi visto.” 

O livro é visivelmente uma sátira sobre o período de ditadura stalinista, o jogo das palavras é simples, certeiro, não encobre, é a verdade nua e crua mesmo, doendo a quem doer. Mesmo com toda ambientação política que o livro traz e faz pensar, o que em mim ficou foi um trecho lá do início, que chega a dar um nó na cabeça se parar para pensar muito: será essa a ordem natural das coisas? Não só o espaço político, o poder, mas as pessoas mesmo, a visão de mundo, o certo, o errado... Desculpem, mas eu não acredito em revolução alguma, nunca acreditei, e se a única viável é o amor, tem dias que mesmo essa parece impossível de acontecer, mas não deixem de acreditar também, né, quem sabe... 

“A República dos Bichos, que o Velho Major havia previsto, quando os verdes campos da Inglaterra não mais seriam pisados por pés humanos, era coisa em que ainda acreditavam. O dia havia de chegar. Podia ser mais cedo ou mais tarde, talvez não acontecesse durante a vida de nenhum dos animais de então, mas havia de chegar.”
           
           

O susto

Tocava tudo apertando os olhos bem devagar. A luz lhe fazia manhã. Sentou-se na cama, o frio do chão sentia seus pés. Seis passos até porta. Girou a maçaneta. O susto: era o amor. Sentou chorando ali mesmo. E agora, o que eu vou fazer com isso?

quinta-feira, 28 de março de 2013

a vida que a gente perde, todo dia

a lua me dava água na boca
gota a gota
pingava estrelas dos olhos

depois
nunca mais
ele acordou

e eu
tive que ir.

Revelando Alice V


tem instantes
Alice é tão feliz, tão
que eu chego mesmo a acreditar 
no país das maravilhas,


para sempre.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Convite

O vento dança
a valsa invisível
dos meus dias

Quando faz
bagunça nos cabelos
eu sorrio porque sei
é ele me chamando
para entrar no ritmo
para caber na dançar
e ir

Mas quando faz
bagunça nos pensamentos
nossa!
eu brigo, choro
fecho a janela
intento dormir

sonho sendo pássaro
dançando juntinho
ao vento fresco
que me leve
o coração.


domingo, 10 de março de 2013

Quero te ouvir

Porque em mim adormece uma oração
de grandes súplicas insuperáveis
em crescente e abundante querer
minha boca fria congela o verbo.

Tudo que acontece é cego
não me vê caindo
não me sabe pequena
como uma estrela que não se acende no céu.

Minhas mãos tateiam o nada
e querem fazer disso algo mais
sem culpa de não ser.

Meu espírito busca te encontrar
suave, dentro dos dias
a dizer meu nome cheirando paz.

terça-feira, 5 de março de 2013

Revelando Alice IV

Alice esconde a mulher no porão
eu vejo só a menina
teimosa, crescendo só.

Vai vivendo tudo bem guardado
grande, não cabe no país
espera, o acontecimento que vai deixá-la ser
completo
tudo a transbordar.

Alice não me deixa ir ao encontro
do abandono que não é solidão.

Alice me faz vítima e vilã de mim.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Melodia em dó maior

Então
se eu fosse
o barulhinho das folhas secas
que caem das árvores,
ecoaria em ti

bem ao sabor do vento fresco
principiando estações
jamais findáveis

ecoaria em ti
e só.

Motivo 7

porque não faz sorrir
faz gargalhar e doer a barriga
me tem em sol.