Tudo era como o barulho
do bonde antes de adormecer,
até que se sente um
pouco de medo e se dorme.
A boca da máquina fechara
como uma boca velha,
mas vinha aquilo
apertando seu coração como o barulho do bonde,
só que ela não ia adormecer.
Joana
não me permitiu adormecer. Chegou sobre mim fazendo um barulho enorme, jogando
ao vento tudo que secretamente julgo ocultar. Dentro de si Joana é solidão. Dentro da
solidão Joana se faz. Fazendo a si Joana desconstrói o mundo. Buscando juntar
as peças Joana me constrói no seu mundo, e por mais incrível que pareça: nos
encontramos.
Descobri em cima da chuva um milagre –
pensava Joana –
um milagre
partido em estrelas grossas,
sérias
e brilhantes, como um aviso parado: como um farol.
O que
tentam dizer? Nelas pressinto o segredo,
esse
brilho é o mistério impassível que ouço fluir dentro de mim,
chorar
em notas largas, desesperadas e românticas.
Não
chego a descobrir o milagre se fazendo em Joana. Mas consigo sentir o milagre
se cumprir em mim a cada segundo do dia. Mesmo quando, ainda selvagem, sou a
própria tempestade: “sou a onda leve que
não tem outro campo senão o mar, me debato, deslizo, voo, rindo, dando,
dormindo, mas ai de mim, sempre em mim, sempre em mim.”
Quisera
eu pudesse revelar a Joana o que ela própria me revelou, e trazê-la a superfície
sem culpas, e deixá-la no colo de Deus.
De
profundis.
Deus meu
eu vos espero, deus vinde a mim,
deus,
brotai no meu peito,
eu não
sou nada e a desgraça cai sobre minha cabeça
e eu
só sei usar palavras e as palavras são mentirosas (...)
Cheia de si. Vejo Joana cheia de
si, cheia de mim e cheia de Clarice. Talvez, muita pretensão querer me
encontrar tão perto desse coração, mas é aí que estou. Exatamente neste lugar:
perto do coração selvagem.

