Escrito no dia 22/nov/2016,
mas um desejo e uma saudade para hoje:
365 novos dias para serem sentidos com os pés na terra;
a textura do mundo, o inteiro.
- Tia, a gente pode tirar os sapatos?
- E a meia?
- ÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊ, tia deixou!!!
Lá na minha turma ouço essas perguntas todos os dias. A todo o momento e antes de começarmos qualquer rodinha. Antes da leitura. Antes da notícia. Antes do “que dia é hoje? Como está o tempo lá fora? Vamos marcar?”. Antes de abrirmos a caixa divertida. Vou confessar que tem dias eles ouvem um “hoje não”, porque imagina você calçar às pressas oito pares de sapatos (alguns bem difíceis) enquanto os pais, nem sempre pacientemente, esperam na porta? Mas, Alice, você não os incentiva a serem independentes? Claro! Mas os pais estão esperando na porta, eu tenho que correr e nem sempre todos podem viver o ato de calçar as alegrias do dia em seus próprios sapatos.
Você aí, que alto de sua sabedoria já sabe amarrar seus cadarços, lembra-se da primeira vez que os fez sozinho? Lembra-se do quanto foi difícil entrelaçar aqueles fios, os nós, o laço final? O que hoje fazemos no automático aos quatro anos é uma das tarefas mais difíceis do mundo. Exige calma, concentração. Exige muita habilidade motora, percepção visual e espacial. Exige uma sequenciação de movimentos que às vezes eu não tenho!
- Mas é rapidinho, tia. Depois a gente calça!
- Quem tirar vai ter que tentar amarrar sozinho depois, hein?
Vou confessar que usava essa estratégia para fazê-los pensar que era melhor ficarem calçados, o que jamais impediu a aventura de muitos. Uma crueldade terrível. Sim, Alice sente vergonha disso. Tanta que o deixou de fazer e passou a desatar os nós. Aprender a amarrar os cadarços exige amor.
Há um mês Eliza calça e amarra, sozinha!, os cadarços dos seus sapatos. Vai em nosso diário o registro daquele dia memorável. Nossa, foi uma felicidade sem tamanho. A todo tempo dizia já estar independente. Calçava e descalçava aqueles sapatos com um sorriso no rosto e exibindo para todos sua destreza. Ontem foi Cleber. Há dias ele não aparecia na escola e chegou com essa novidade. Brincamos descalços. Pés no chão, coração pulsando o corpo inteiro. Transpiramos felicidade.
Hoje eu quero apenas pedir desculpas pelos dias em que vocês ficaram calçados. Pelos dias em que seus dedos não se refestelaram pelo lado de fora. Porque o mundo carece de ser tocado com os pés de vocês. O mundo carece desse carinho que se espanta com o frio e a dureza dos dias tentando reinventá-los (e conseguindo sempre!). Por favor, vamos todos tirar os sapatos antes de começar a viver! Agora será assim.
