terça-feira, 31 de dezembro de 2013

O lado direito

quando o sal cristalizar meu corpo
amanhã
não serei eu

o que palpita no peito
dança
nada diz

quero viver a mim
pelo avesso
vestir a cor que grassa
o verso.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Eu sei a cor do vazio

Quando chegou eu desenhava o infinito. Com a ponta do dedo dava forma ao universo inteiro, todos, ninguém me conhecia. O vazio era um lugar sem cor e longe, dava para ver a poeira cobrindo meu corpo e eu empurrava toda mão que me queria chegar. Não vou ficar aqui muito tempo, o vazio é triste e eu tenho medo de ser triste também. Olha, você me perdoa?

Quando chegou eu assistia ao vento dançar. Foi a maior conquista daqueles anos. Todos, ninguém me reconhecia. Você é o vazio de si mesma. Vem, deita aqui, eu não tenho medo, vou ficar.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Diálogos [João e Marília] XVI

- A  verdade é una mas divisível, como o amor, Marília, esse que te causa medo. Esse que colocas tão distante quando o tens ao alcance de um abraço. O que você faz, também, sozinha, com tanto amor nas mãos, com tanto amor escorrendo de ti, com tanto amor perfumando teus cabelos? Me diz!


sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Fazia um tempo bom

era tanto mar
dentro de mim
sinto dores incuráveis
que medo de ser horizonte.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Eu não tenho sete vidas

Aqueles poemas nunca escritos deram de despertar todos de uma só vez. Andaram a me perseguir, gritam meu nome pelas ruas em plena manhã. Dou passos largos, evito correr mas continuo suando muito. Eles não param, velam meu sono e quando percebo: sonho. Estou no topo da escada, eles me puxam pelo braço. O abraço. Grito. Não pode ser. Choro. Acenderam a luz, vasculharam todo meu quarto mas não tinha ninguém. Corria um rio, eu era salgada e sangrava das mãos. Todos cheiravam como o vazio e cantavam enquanto eu dormia segurando a mão que dizia adeus. Tão longe.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Diálogos [João e Marília] XV

- A verdade não é saudável. Não quando digerida assim, João, sem companhia. Não quando nem mesmo pode me salvar.
- Mas a verdade brota de ti sem que disso você tenha controle. Eu sinto o cheiro dela na sua voz, não faça disso pouco, Marília. A mentira não terá por ti misericórdia. Renda-se!