quinta-feira, 29 de maio de 2014

a minha poesia
serve apenas
para chorar versos
que não podem ser
cantados na voz fina
de quem engole
a liberdade do grito
e sangra.
"você não me conta
como eu vou saber
se o pedaço de céu que encobre tua vida
é do mesmo azul
que escorre de mim?
se você não faz nem sinal de fumaça
que chance eu tenho
de decifrar teu coração, Alice?"


terça-feira, 27 de maio de 2014

É sendo em Ti
que me reconheço
pequena
a deitar versos como orações
sussurradas no calor do Teu abraço.
 

meus pés podem tocar o infinito

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Fatal

senti dor
sem ti
dor
sem ti
Tudo que o poeta não diz
grita nas linhas
abaixo do sentido
o sentir.

domingo, 25 de maio de 2014

alguém
por favor
contenha os versos
que de mim escorrem
uma pausa
com calma
porque já nem me vale respirar.
há qualquer coisa de indecente
na dor que não cessa
que te faz e que te leva
qualquer coisa de leviano
no sorriso que me sorri
há qualquer coisa de divino
no que inventas para seguir.

coisas da rainha

alice
cansada de aumentar e diminuir
longe da lagoa de lágrimas
agora é ela quem dá as cartas:
- cortem-lhe a cabeça!

sábado, 24 de maio de 2014

minha vida respira
sem firmeza 
longe do verso
minha boca condena 
sem piedade
todo verbo.
 

 
 



sexta-feira, 23 de maio de 2014

.

estes braços finos
tão fortes
essas tuas lentes de não ver
e perto de estar
precipitou um tempo que não existe.


quinta-feira, 22 de maio de 2014

O salto

eu agora
em queda
livre

você nem sabe
a dor
que dói.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Inédito

Para quem (da Academia de Letras - Ba)  respondeu meus e-mails


Mas eu não guardo surpresa
(que vira presente com local e hora marcada)
nem dinheiro
(que vira sorvete, gelado, gelado!)

imagina
se eu vou guardar poemas
só para ter um livro publicado?

Elícia quer ser princesa




mas nem precisa de coroa,
princesinha,
esse teu sorriso largo junto ao meu
vale mais que mil reinos encantados!

terça-feira, 20 de maio de 2014

Legislação tributária I

pagando tributo
para habitar coração alheio
hipótese alguma
revela incidência de amor.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

procuro
mas não encontro
a porta aberta
riso e abraço
na hora certa
quem estará lá?

domingo, 18 de maio de 2014

diria aos gritos com os olhos da cor de fogo
não é meu
esse corpo jogado no canto da vida
não é meu!
onde estou?
me diz!

domingo, 11 de maio de 2014

Adivinha o quanto eu te amo

amo o jeito que o meu nome soa na sua voz
o jeito que me conta em segredo, baixinho,
"um dia eu vou te dar uma flor de presente!"

amo o jeito que você sorri
querendo me conquistar
o jeito que teus olhos
entoam cantigas de amor
sem vacilar de medo.
 
amo o cheiro alegre que você deixa na casa inteira
quando corre e segue sendo todos os heróis.

amo o jeito que você acompanha a lua no céu
e traz para perto de mim todas as estrelas
todos os sonhos 
em ternura e doce paz.


sábado, 3 de maio de 2014

Dançando contigo

Eu sinto o toque de tuas mãos
e me convidas a girar
alto
meu coração sorri em Teus passos.

Eu sinto a dança,
Tua palavra em mim
melodias, milagres, amor.

Estamos girando
sem cair
estamos girando
suavemente.

Porque me ama tanto
resgatou-me
 aqui estou
junto a Ti. 

Eu sinto a dança
Teus braços a me envolver
Tua graça a me salvar
melodias, milagres, amor.

Estamos girando
infinitamente
estamos girando 
enquanto Teus olhos
em mim permanecem.



terça-feira, 22 de abril de 2014

minha voz não tem cor
meu corpo é frígido
mas tudo em mim
dança.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Sinais do mar*

depois de digeridas
certas palavras
trazem o gosto de sal na boca
nenhum pensamento
dentro da razão
nada faz sentido.



*Título do livro da Ana Maria Machado
(que navega em mim)


domingo, 20 de abril de 2014

por sobre as linhas da minha mão
não cabem versos abertos
caminho algum diz 
a certa distância de ti
até o amor
soa natural

 .
.
.

sábado, 12 de abril de 2014

Cada ponta do teu sorriso
no varal
pendura um lado da minha vida
bamba
até eu 
sol
vaporizar.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Sinto muito, tanto

sei ler partitura
só
não amor

serve?

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Dia de festa


Quando sinto dor escrevo
costuro versos no corpo
como quem se enfeita com o mais belo vestido
queria grudar a poesia em mim.

Manuscrito

Pois veja
a vontade às vezes
é de publicar não um livro
mas uma vida
interira
na vida de alguém


sem revisão.


terça-feira, 8 de abril de 2014

brilha um sol
dentro da
SOLidão
 não aquece
não colore laranja
nenhuma mão.



segunda-feira, 7 de abril de 2014

Inimigos da cruz
choram Tua morte
eu
cheia de vazios
quero me preencher
da Tua vida.

terça-feira, 1 de abril de 2014

abril
e desagua outono
em nós secos 
 dentro dela
mar arranhado
ao longe
um brilho
num farol

isso não é mais um poema sobre amor
não?

segunda-feira, 31 de março de 2014

Vermelho

no  céu da minha boca
não brilham estrelas
só
um vácuo obscuro
que não quer calar.

Não desite de mim

Ainda sujo
meu coração reconhece Tua graça
pulsa vazio
pede misericórdia

vem me socorrer!




domingo, 30 de março de 2014

Sem passos para além da fronteira

eu não vou me encontrar
nunca
mergulhei
sem saber nadar
olha, estou me afogando
neste borrão azul
vida

quinta-feira, 27 de março de 2014

Constatação

O infinito
é uma linha
que cai
sem parar

.
.
.

Depois

Escreve a lápis
amanhã não vai ser nada
sem pressa
os dias te veem passar

não vai ser nada
amanhã
escreve a lápis
solidão não é lar

vai passar
não vai ser nada
amanhã.

sábado, 8 de março de 2014

Dois pra lá

em compasso
ternário
eu

valsinha singular.

Crescente

querendo escrever
ao ritmo de colcheias
deslizo bemol
em ti

e com a altura
de teus olhos
estremeço

grave


quarta-feira, 5 de março de 2014

Meu coração é uma onda

quebrando na praia
beijando a areia
querendo curar.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Não vem ninguém

perdi a paciência
os amigos os encontros
perdi a hora
o ônibus o amor
perdi o riso
entre uma piada e outra
que nunca entendo de primeira
perdi o caminho
tentando acertar
perdi o jeito de caber 
entrelinhas
restou só este poema
perdido no tempo.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Menos flor

uma faísca daquele sorriso
ainda me ilumina
queria chegar afiada
cravando o verso
como faca em algum coração

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Oco é uma palavra vazia

ninguém me respondia
quantos infinitos
escondem o horizonte?

quem me olha
nos olhos vê mais que um caminho?


terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Alameda das Flores


Era como se eu precisasse
lembrar de quem eu sou
do meu lugar
porque naquela avenida
ainda correm meus pés
ainda o vento sopra em meu corpo
ainda faz nós no cabelo
nas mãos

Era como se precisasse
lembrar que andar sobre andar
cada degrau ali sabe a cor perdida dos meus dias
todas as paredes têm meu cheiro
a paisagem da janela ainda é minha
o som da bola embaralhada entre os gols
dos meninos
só eu sei tocar!
esses bancos de cimento vazio
estão à minha espera

era como se quisesse lembrar
estou aqui
você não.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

O lado direito

quando o sal cristalizar meu corpo
amanhã
não serei eu

o que palpita no peito
dança
nada diz

quero viver a mim
pelo avesso
vestir a cor que grassa
o verso.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Eu sei a cor do vazio

Quando chegou eu desenhava o infinito. Com a ponta do dedo dava forma ao universo inteiro, todos, ninguém me conhecia. O vazio era um lugar sem cor e longe, dava para ver a poeira cobrindo meu corpo e eu empurrava toda mão que me queria chegar. Não vou ficar aqui muito tempo, o vazio é triste e eu tenho medo de ser triste também. Olha, você me perdoa?

Quando chegou eu assistia ao vento dançar. Foi a maior conquista daqueles anos. Todos, ninguém me reconhecia. Você é o vazio de si mesma. Vem, deita aqui, eu não tenho medo, vou ficar.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Diálogos [João e Marília] XVI

- A  verdade é una mas divisível, como o amor, Marília, esse que te causa medo. Esse que colocas tão distante quando o tens ao alcance de um abraço. O que você faz, também, sozinha, com tanto amor nas mãos, com tanto amor escorrendo de ti, com tanto amor perfumando teus cabelos? Me diz!


sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Fazia um tempo bom

era tanto mar
dentro de mim
sinto dores incuráveis
que medo de ser horizonte.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Eu não tenho sete vidas

Aqueles poemas nunca escritos deram de despertar todos de uma só vez. Andaram a me perseguir, gritam meu nome pelas ruas em plena manhã. Dou passos largos, evito correr mas continuo suando muito. Eles não param, velam meu sono e quando percebo: sonho. Estou no topo da escada, eles me puxam pelo braço. O abraço. Grito. Não pode ser. Choro. Acenderam a luz, vasculharam todo meu quarto mas não tinha ninguém. Corria um rio, eu era salgada e sangrava das mãos. Todos cheiravam como o vazio e cantavam enquanto eu dormia segurando a mão que dizia adeus. Tão longe.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Diálogos [João e Marília] XV

- A verdade não é saudável. Não quando digerida assim, João, sem companhia. Não quando nem mesmo pode me salvar.
- Mas a verdade brota de ti sem que disso você tenha controle. Eu sinto o cheiro dela na sua voz, não faça disso pouco, Marília. A mentira não terá por ti misericórdia. Renda-se!

sábado, 30 de novembro de 2013

Motivo 9

tem uma casquinha de sorvete no céu, vê?
sorria!

domingo, 24 de novembro de 2013

Esconderijo

Construí poemas
para te guardar
verso sobre verso
ergui lugares altos
longínquos

A queda
foi inevitável
não se culpe

Ao me levantar
nas linhas
em desatino
a vida será outra estrofe
líquida
escorrendo de minhas mãos
em der(rota)
um sopro de sacrifício.

sábado, 26 de outubro de 2013

Cadeira de balanço

No quintal da Vó não tinha pitangueira nem hortinha
eu não corria descalça na terra úmida
não ficava observando as minhocas ou galinhas

O quintal era seco
sem fantasia
longe de tudo

Longe
todos os abraços
naquele mundo tão frígido

Nenhuma paz descansava no silêncio
nenhuma história acordava para mim.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Eu não vejo fim

Existe quem só veja pele
eu enxergava verso
em cada linha do teu rosto
eu encontrava caminho
em tuas mãos

Houve quem só vislumbrasse
um corpo magro e fixo neste tempo
eu te vestia poesia
e sei tuas letras
tua forma
para além do espaço.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

deitada aqui
aos pés da madrugada
eu apago o céu
com a mesma mão que desenhando sonhos
encontro a ti

depois
tateando no escuro
toco em sol
ardendo a ponta dos dedos
lambendo as lágrimas
que escorrem da lua


terça-feira, 1 de outubro de 2013

Para além do infinito tem você



Para Elícia Camilly, minha cor feliz.

A julgar pelo que somos
há quem diga
você tem tudo de mim

Eu, desconfio
mas a bem da verdade
é você quem tem
o País das Maravilhas nas mãos

Um mundo mágico 
onde a infância persiste
e revela o encanto.

A julgar pelo que somos
você deveria ter vindo de mim
e veio para mim
vestida em amor
instaurando paz.

Eu te amo pelo que és, Elícia
esta forma singular
inventando a Alice
que eu desejo ser.


segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Num tempo de agora

uma estrela pequenina
que apertei em minha mão
furou minha pele
habitou em mim

adormeceu
sangrando lágrimas
me deixei partir

sinto tanta saudade de ser inteira.

Estes olhos, esta casa desabitada

Estes olhos que agora vejo
não são meus
resignaram-se a horizontes pequenos
não sabem mais o azul
transbordam invisíveis

Estes olhos que agora me veem
me tocam pela metade
e o frio da pele
cala toda voz

Estes olhos que agora adormecem
sonham comigo
em dois e par
singulares criaturas por trás das névoas

Nestes olhos o lugar
caos do mundo
esboço de uma paz
inventada.


sábado, 14 de setembro de 2013

Apenas um ruído

Um ruído atravessa a noite. 

Eu ainda sei cantar horas madrugada adentro
apertando o tempo para caber em mim
apertando os olhos para caber o sono 
para nascer o sonho.

Um ruído corta o céu enquanto amanheço 
banho quente quase a vapor
depois ainda sinto o sorriso 
quando ninguém vê  
ensaio danças no vazio

passos de sol.

Entarderço sem dizer uma palavra 
som inaudível dilatando espaços.

Um ruído me atravessa
ainda sou inteira
enquanto ouço
envelhecer o tempo.




domingo, 8 de setembro de 2013

Sonho real

No meu sonho eu era você. E você me dizia que estava voltando. Que a gente ia enfim aprender a dançar. Que eu não iria fugir. Que a gente não iria fugir. Que a gente ia ser. Então nós acontecíamos. No céu, no meio do jardim, nas ruas, em todas as cidades do mundo. A gente florescia. E da flor o abraço. Depois nós íamos diminuindo, pouco a pouco. Aí meu coração ficava enorme de medo e eu calava. Cada vez mais a gente sumia no meio da multidão. Eu vi que nos tornávamos pó mas depois só enxergava estrelas, guardadas embaixo da cama porque você disse serviria para espantar fantasmas. A gente não disse adeus e o vento soprava tão forte. Quando abri os olhos era uma explosão de cores, sem estrela, sem nada. Só brilho.
sob minha pele
sinto despertar primaveras.



segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Confissões de agosto

nem alegre
nem triste
muito menos poeta.

alice,
apenas.

e isto nem é tudo.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Avenida

atravesso
um verso
sem olhar para os lados

uma vírgula
me atropela
uma pausa que não fiz

tarde demais

envelheço uma eternidade
por sobre as linhas das mãos a minha espera.

sábado, 27 de julho de 2013

Mapa

a palavra
um labirinto

escrevo
para me perder

depois
talvez
eu me encontre
tão desconhecida
que nem farei sentido.

domingo, 7 de julho de 2013

Quem é o poema?

este poema
é uma casa
de janelas fechadas.

o teto frio
não faz estrelas

a palavra
quente
neste canto escuro
silencia a vida.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Revelando Alice VII

Alice escreve como quem procura ser casa 
mas se fecha em toda pausa. 
Ela escreve como quem quer oferecer perdão,
como quem corre para o abrigo de um abraço.

Alice escreve para entender o tempo, ávido, de suas mãos. 
Ela percorre as linhas como quem busca encontrar caminho.

Às vezes, vejo puro amor em Alice.
Tem dias, porém, nada consigo encontrar dentro dela.

Alice inventa inverno para esconder a verdade 
quente 
dos seus olhos negros. 

Não diz, não faz o menor sentido.
Alice conta madrugadas dentro da noite. 
Sabe ser cura 
é a salvação contra seu próprio mal.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Marcatto

a verdade
em valsa

a mentira
não sabe o passo

eu
fora do ritmo
resisto à dança.

Pequena

gosto da poesia
que anda de ônibus
e sente a vida da janela

daquela
que sentada na calçada
deixa chover
e canta

gosto da poesia
que se faz em mim
quando nada acontece

daquela
que me rasga o peito
junta meus cacos na mão


e me sopra ao vento.

domingo, 2 de junho de 2013

Ouve

a verdade quente
na ponta da língua
diz

sábado, 1 de junho de 2013

Vontade

ser mundo
para o mundo
de alguém

ser estrada
para meu caminho
só

ser lua
dentro das madrugadas
secas horas

ser fogo
queimar
à beira de ti

eu cinza
eu gota
vapor.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Quem é o tempo? II

corta o dia
marca o corpo
endurece o sorriso
muda a pele
não quer mais ouvir

e esses olhos tão grandes
para não me ver

o tempo não cura.

arde
dói.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Pontual

a mentira
um prato cheio

e a verdade é quem mata a fome.

domingo, 26 de maio de 2013

Fica, porque é domingo

É domingo,
manhãs quentes
abraçam o corpo

onde nascemos nós
ali bem onde viramos nó

cobre o ar
do cheiro que arde
no peito aberto

a tua presença
é domingo
ancorado no tempo.

sábado, 25 de maio de 2013

Quem é o tempo?

tão cruel e bonito
tão lento e audaz
tão temido

toca minha mão.

O tempo não é Deus.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Quem sabe

Eu não te esqueci.


Mas isso foi ontem
hoje não
já faz tanto tempo
que eu nem me lembro.

terça-feira, 14 de maio de 2013

olha os dias
vê que não só tu

es
     vai

aprende ser pedra
doa-se
rio.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Motivo 8


aliança
fidelidade
Teus olhos em mim,
sorrio.

sorria, Ele está!

domingo, 5 de maio de 2013

sinto
um vazio agudo
tão grave.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

mas quando vale
o infinito desses olhos
que não me veem
e me sabem?

Gastando o sempre

o amor
pode te fazer céu
mas tem que saber o chão
tem que criar raiz

pode te conduzir em alto mar
mas tem que ser porto
tem que ancorar

em ti
em mim

o amor pode ir
mas tem que ficar
tem que fincar
sempre.


segunda-feira, 29 de abril de 2013

Primavera Num Espelho Partido, de Mario Benedetti

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente! 
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém... 
Sem ti correrá tudo sem ti. 
Talvez seja pior para outros existires que matares-te... 
Talvez peses mais durando, que deixando de durar... 

Se te Queres (Álvaros de Campos) 

Quando eu mudo de ideia de última hora tudo acaba dando errado, muito errado. O apocalipse. Uma tragédia. Sim, também sou excessivamente dramática só que prometo: acontece tudo errado mesmo. Mas olha aqui a exceção: ter escolhido ler o Mario Benedetti esse mês. Nem é primavera, mas eu a vejo do espelho. Olhos negros e miúdos, tão grande o mundo. Chego a mirá-los e o que sei cresce por entre os dedos. Pensei: para um abril doce, deixar que as palavras façam. 

Foi um belo presente conhecer o cheio de intensidades Santiago, a distante Graciela, o que tem mais cheiro de casa do que de avô, Dom Rafael, a encantadora Beatriz – impossível não se deixar apaixonar por ela, impossível! -, o Rolando Austero, de quem eu não sei dizer algo sem ser injusta, e ainda no meio deles todos ter a surpresa de encontrar as experiências do próprio Benedetti. Ao longo do livro encontramos todas essas vozes, cada uma é a história de um jeito diferente, e em muitas delas chego até a encontrar minha própria voz : 

Pode ler, como eu, todas as entrelinhas? 
Por isso eu disse há pouco que talvez esteja feliz 
e é isso que me deixa um pouco estranho. 
Estar feliz e, no entanto, não ser feliz. 
Ah, nunca imaginei que estar feliz 
pudesse incluir tanta tristeza, sabe? 

- 
Penso que todos nós, os que estamos aqui e os que estão em outras partes, 
vivemos um desajuste. Uns mais, outros menos, nos esforçamos para nos organizar, 
para começar de novo, para botar um pouco de ordem em nossos sentimentos, 
em nossas relações, em nossas saudades. 
Mas assim que nos descuidamos, ressurge o caos. 
E cada recaída no caos (perdoe-me a redundância) 
é mais caótica. 

Santiago foi preso durante a ditadura uruguaia e passa a sentir a vida imóvel, mas ela continua correndo solta lá fora enquanto ele trata de recriá-la em cada detalhe, com imagens, em palavras. É um pouco angustiante que o contato com o mundo vivo e feroz que ele deixou aconteça apenas por cartas casuais, que são suas janelas. É assim que ele consegue sobreviver, alimentando suas figuras amadas, Graciela e Beatriz. 

Quando se tem que ficar irremediavelmente parado, 
é impressionante a imobilidade mental que se pode adquirir. 
Pode-se ampliar o presente tanto quanto se quiser, 
ou lançar-se vertiginosamente para o futuro, 
ou dar marcha ré, que é mais perigoso porque lá estão as lembranças, 
todas as lembranças, as boas, as regulares e as execráveis. 
Lá está o amor, ou seja, está você, 
e as grandes lealdades e também as grandes traições. 
Lá está o que a pessoa podia fazer e não fez, 
e também o que podia não fazer e fez. 

A Graciela é distante porque não chega a me emocionar, quando poderia ter sido capaz. Confesso que desejei pensar diferente quanto aos seus sentimentos, mas não consigo entendê-la de outro jeito. Enquanto estava lendo não sentia verdade em nada sobre ela, como aconteceu também comigo em relação a Fermina Daza em O Amor nos Tempos do Cólera. Não é porque ela começa ter incerteza quanto ao seu amor por Santiago, ou porque chama isso de “não sentir mais necessidade dele”, é porque não me toca, não me convence, não encanta nem mesmo seu contato com a Beatriz. Graciela me é indiferente. E estou começando a achar que tenho criado certa aversão a personagens/vozes femininas como as dela. 

Agora já bem perto de mim, a Beatriz. Fiquei coberta de ternura todas as vezes em que encontrei a história passando por seus olhos. 


Quando acontece um apagão nos elevadores 
de arranha-céus o pânico grassa. Na minha sala, 
quando chega a hora do recreio a alegria grassa. 
O verbo grassar é um lindo verbo.
(...) 
Acho que onde meu pai está, 
na última hora da tarde deve grassar a tristeza. 
Gostaria muito que meu pai pudesse, por exemplo, 
visitar o arranha-céu onde trabalha Graciela, ou seja minha mãe. 

- 
Quando vier a anistia vamos dançar tango. 
Os tangos são umas músicas tristes 
que se dançam quando se está alegre 
e assim se fica triste de novo. 

Sim, o tempo e a distância não só podem como mudam quem amamos. As ruas mudam, os estranhos são mais estranhos, as flores nascem em outros jardins, o tempo já não é o mesmo lá. Até o azul é menos – ou mais – azul. Então a gente percebe que não fez falta, que a par de nós o mundo continua, as estações se cumprem. Eu sabia que as palavras do Benedetti teriam força para cumprir primavera em mim mesmo agora, mesmo assim. Eu só não sabia que ia ser tão... ninguém precisa estar entre quatro paredes para se sentir um exilado. 


a primavera é como um espelho 
mas o meu está com a ponta quebrada / era inevitável 
não ia sair inteirinho desse bem nutrido quinquênio / 
mas apesar da ponta quebrada 
o espelho serve 
a primavera serve

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Espelho

abril
nem pétala
qual flor?

em mim
não se cumprem
estações.


domingo, 31 de março de 2013

Revelando Alice VI

Alice foi ser um poema secreto
desenhado com palavras curtas
e sem voz,
mas eu sei o tom
que a levou.

Nada de coelhos!
Alice seguiu o vento,
queria aprender a dançar

tão menina
eu a vi
em passos singulares
fazendo desenhos no ar

quase mágica.

Lembro de gritar 
Alice, fica!
ela
nada de olhar

nem vi seus olhos
mas sei, começavam a transbordar
e escorria de mim 
a vida em gotas.

Era o meu fim?
o de Alice?
quem iria nos salvar?

quem vai ler o poema secreto de nós?

quando eu escrevo
a palavra amor
setenta e cinco borboletas
pousam na minha mão
e borram o papel
de um tom alaranjado.


A Revolução dos Bichos, de George Orwell

Cheguei mesmo a pensar que esse seria mais um livro de leitura abandonada, não é que a história seja ruim, no início inclusive, eu comecei a ler bem entusiasmada e até arranjei umas conversas bem legais por conta dele, além de uma versão em quadrinhos do livro, o que significa muito, já que eu sou o tipo de pessoa que usa livros e fones para se perder do mundo, para se esconder das pessoas, para não precisar falar, nunca. 

Os animais protagonizam a história que acontece em torno da Granja do Solar, na Inglaterra, onde os bichos propõem uma revolução que instauraria a tão sonhada liberdade, queriam o fim da submissão aos homens. A mensagem de revolução é passada por um porco, o velho Major, animal mais respeitado de toda a fazenda, e abraçada pelos outros porcos, considerados a “intellingentsia do mundo animal”. Responsabilizam-se por manter o ideal de revolução vivo e, mais que isso, por construírem o que seria a sociedade ideal, próspera, onde todos os bichos seriam iguais, ajudando uns aos outros mutuamente e livres da submissão ao gênero humano, afinal: Quatro pernas bom, duas pernas ruim.

O acontece no plano real, no entanto, não foi bem o que todos os animais sonharam ao ouvirem, naquela noite inspiradora, o velho Major. E mesmo naquele ambiente de medo e insegurança que com o tempo se instaurou na Granja, os animais continuavam acreditando que aquele tempo ainda era melhor que o de Jones e o essencial era evitar que os humanos retornassem ao controle. E então, eu que pensei em desistir do livro, até fiquei um tanto emocionada quando o cavalo Sansão foi levado da fazenda (boba, podem dizer!):

“ “Camaradas! Camaradas!”, gritavam. “Não levem um irmão para essa morte!” Porém os brutos, estúpidos, ignorantes demais para entender o que acontecia, limitaram-se a murchar as orelhas e apertar o passo. A cara de Sansão não reapareceu mais na janela. Alguém pensou em correr à frente e fechar a porteira das cinco barras, mas era tarde demais, pois logo o carroção atravessava a porteira e desaparecia rapidamente na estrada. Sansão nunca mais foi visto.” 

O livro é visivelmente uma sátira sobre o período de ditadura stalinista, o jogo das palavras é simples, certeiro, não encobre, é a verdade nua e crua mesmo, doendo a quem doer. Mesmo com toda ambientação política que o livro traz e faz pensar, o que em mim ficou foi um trecho lá do início, que chega a dar um nó na cabeça se parar para pensar muito: será essa a ordem natural das coisas? Não só o espaço político, o poder, mas as pessoas mesmo, a visão de mundo, o certo, o errado... Desculpem, mas eu não acredito em revolução alguma, nunca acreditei, e se a única viável é o amor, tem dias que mesmo essa parece impossível de acontecer, mas não deixem de acreditar também, né, quem sabe... 

“A República dos Bichos, que o Velho Major havia previsto, quando os verdes campos da Inglaterra não mais seriam pisados por pés humanos, era coisa em que ainda acreditavam. O dia havia de chegar. Podia ser mais cedo ou mais tarde, talvez não acontecesse durante a vida de nenhum dos animais de então, mas havia de chegar.”
           
           

O susto

Tocava tudo apertando os olhos bem devagar. A luz lhe fazia manhã. Sentou-se na cama, o frio do chão sentia seus pés. Seis passos até porta. Girou a maçaneta. O susto: era o amor. Sentou chorando ali mesmo. E agora, o que eu vou fazer com isso?

quinta-feira, 28 de março de 2013

a vida que a gente perde, todo dia

a lua me dava água na boca
gota a gota
pingava estrelas dos olhos

depois
nunca mais
ele acordou

e eu
tive que ir.

Revelando Alice V


tem instantes
Alice é tão feliz, tão
que eu chego mesmo a acreditar 
no país das maravilhas,


para sempre.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Convite

O vento dança
a valsa invisível
dos meus dias

Quando faz
bagunça nos cabelos
eu sorrio porque sei
é ele me chamando
para entrar no ritmo
para caber na dançar
e ir

Mas quando faz
bagunça nos pensamentos
nossa!
eu brigo, choro
fecho a janela
intento dormir

sonho sendo pássaro
dançando juntinho
ao vento fresco
que me leve
o coração.


domingo, 10 de março de 2013

Quero te ouvir

Porque em mim adormece uma oração
de grandes súplicas insuperáveis
em crescente e abundante querer
minha boca fria congela o verbo.

Tudo que acontece é cego
não me vê caindo
não me sabe pequena
como uma estrela que não se acende no céu.

Minhas mãos tateiam o nada
e querem fazer disso algo mais
sem culpa de não ser.

Meu espírito busca te encontrar
suave, dentro dos dias
a dizer meu nome cheirando paz.

terça-feira, 5 de março de 2013

Revelando Alice IV

Alice esconde a mulher no porão
eu vejo só a menina
teimosa, crescendo só.

Vai vivendo tudo bem guardado
grande, não cabe no país
espera, o acontecimento que vai deixá-la ser
completo
tudo a transbordar.

Alice não me deixa ir ao encontro
do abandono que não é solidão.

Alice me faz vítima e vilã de mim.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Melodia em dó maior

Então
se eu fosse
o barulhinho das folhas secas
que caem das árvores,
ecoaria em ti

bem ao sabor do vento fresco
principiando estações
jamais findáveis

ecoaria em ti
e só.

Motivo 7

porque não faz sorrir
faz gargalhar e doer a barriga
me tem em sol.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

A Mesa Voadora, de Luis Fernando Verissimo

Então eu também descobri que não escolho livros que me façam sorrir, é sempre mais para fazer doer, lagrimar e me levar ainda mais para dentro de mim. Quando perguntam eu respondo que gosto dos livros que me levam ao longe. Não é mentira, aqui dentro é tão distante, e eu sempre encontro um jeito de voltar.
 
Dessa vez foi tão diferente que chegou a ser estranho, eu ri muito com o Luis Fernando Verissimo. A Mesa Voadora é seu terceiro livro de crônicas relançado pela Editora Objetiva. O Verissimo nos aponta como verdadeiros predadores e mesquinhos quando o assunto é comida, tudo isso de forma divertidíssima. Mas como não poderia deixar de ser eu achei a poesia, ele diria que eu cheguei mesmo a ter fome dela, já que "Comer é uma forma extrema de possuir o que queremos".

"No outro final, os dois se despedem, nunca mais se veêm, e o espectro de uma possível sauce com trufas perfeitas para os champingnos recheados fica vagando entre as prateleiras, por todos os tempos".

É um livro de humor elegante, que me arrancou risos leves ao descobrir a delícia de ser um inventor de sabores.

" - Olhe, ele está de olhos fechados... e sorrtindo como um anjo!
- Deve estar pensando num novo sabor."
 
Recomendo muito a leitura, especialmente para você que assim como eu anda se doando e se doendo nas entrelinhas.
 
"Ou talvez seja uma história inspiradora: não confunda os aperitivos que o destino lhe serve com a vida, cedo ou tarde aparecerá o prato quente. Sei lá."

domingo, 24 de fevereiro de 2013

atrás dos dias
o corpo é cansado
a voz não ecoa
a vida é imóvel
mas você passa

atrás dos dias
toda espera é burra
a verdade envelhece
o sorriso é raso
e a mentira até convém

atrás dos dias
permaneço
sombra de mim

atrás do amor
penumbra
fogo
festa
cinza
fim.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Revelando Alice III

Alice chora o leite derramado e não gosta de café. Contempla mãos e ainda conta nos dedos. Tem os pés tão estranhos quanto a vontade de voar. Aperta os olhos para ver o todo, mas não me vê. Alice tem uma paixão secreta por janelas. Abertas, fechadas, de toda cor. Janelas de ônibus, de casas... Eu me pergunto quando ela irá saltá-las. Quando, Alice? Quero tanto te saber livre, tanto.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Dicionário X



Casa:

lugar do qual a gente nunca vai embora. Gente que dá vontade de morar. De paredes fortes com blocos de ternura, cheia de braços longos e riso frouxo. Número oito, na rua que faz verão todo dia. Manhãs de domingo. Aqui a gente sabe quem chega pelo som da chave girando na fechadura; pelo passos mais leves quando se aproximam da porta. É, o amor faz barulho, e bagunça também.

Vocês são minha casa, meu melhor lugar no mundo.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Motivo 6


Acontece o amor toda vez que piscamos os olhos, apertados; 
a cada passo nosso, em cada parada, estação; 
em cada nuvem que dissolve quando vem a chuva. 
O amor está acontecendo em cada sorriso largo; 
até na incerteza ele está, e reluz mais que o crepúsculo. 
O amor acontece em nossas mãos quando buscam se aquecer. 
Toma todos os meu braços; quer morar num só abraço. 

O amor está, principalmente, quando não aparente. 
Sorria!

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Coordenada

Dentro do meu norte
bem perdida
a sul de mim.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Vê?

É sobre voltar. Sobre entrar em casa, tocar os móveis, abrir as gavetas, reler os papéis velhos deixados sobre a mesa ao lado da janela que diz um vento pontual às cinco da tarde, quando gosta de cheirar as cortinas que dançam silêncio. É sobre andar cada centímetro guardado entre aquelas paredes e dar-se por satisfeita sabendo que conheceu todo espaço de novo, seu. Depois é aqui. A gente sabe onde termina e não é no fim. 

É sobre ligar todas as lâmpadas e ficar no escuro, no centro de tudo. O caos. 

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

A bem de mim

a bem de mim
fico
com quem está onde escolheu ser
finjo
como quem se esconde mas anseia por ser descoberto

a bem de mim
nada me encontra
e eu permaneço

solar.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

A hora dos invisíveis

Em verão acontecendo
alta noite
a cidade sempre sente frio.