domingo, 5 de maio de 2013

sinto
um vazio agudo
tão grave.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

mas quando vale
o infinito desses olhos
que não me veem
e me sabem?

Gastando o sempre

o amor
pode te fazer céu
mas tem que saber o chão
tem que criar raiz

pode te conduzir em alto mar
mas tem que ser porto
tem que ancorar

em ti
em mim

o amor pode ir
mas tem que ficar
tem que fincar
sempre.


segunda-feira, 29 de abril de 2013

Primavera Num Espelho Partido, de Mario Benedetti

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente! 
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém... 
Sem ti correrá tudo sem ti. 
Talvez seja pior para outros existires que matares-te... 
Talvez peses mais durando, que deixando de durar... 

Se te Queres (Álvaros de Campos) 

Quando eu mudo de ideia de última hora tudo acaba dando errado, muito errado. O apocalipse. Uma tragédia. Sim, também sou excessivamente dramática só que prometo: acontece tudo errado mesmo. Mas olha aqui a exceção: ter escolhido ler o Mario Benedetti esse mês. Nem é primavera, mas eu a vejo do espelho. Olhos negros e miúdos, tão grande o mundo. Chego a mirá-los e o que sei cresce por entre os dedos. Pensei: para um abril doce, deixar que as palavras façam. 

Foi um belo presente conhecer o cheio de intensidades Santiago, a distante Graciela, o que tem mais cheiro de casa do que de avô, Dom Rafael, a encantadora Beatriz – impossível não se deixar apaixonar por ela, impossível! -, o Rolando Austero, de quem eu não sei dizer algo sem ser injusta, e ainda no meio deles todos ter a surpresa de encontrar as experiências do próprio Benedetti. Ao longo do livro encontramos todas essas vozes, cada uma é a história de um jeito diferente, e em muitas delas chego até a encontrar minha própria voz : 

Pode ler, como eu, todas as entrelinhas? 
Por isso eu disse há pouco que talvez esteja feliz 
e é isso que me deixa um pouco estranho. 
Estar feliz e, no entanto, não ser feliz. 
Ah, nunca imaginei que estar feliz 
pudesse incluir tanta tristeza, sabe? 

- 
Penso que todos nós, os que estamos aqui e os que estão em outras partes, 
vivemos um desajuste. Uns mais, outros menos, nos esforçamos para nos organizar, 
para começar de novo, para botar um pouco de ordem em nossos sentimentos, 
em nossas relações, em nossas saudades. 
Mas assim que nos descuidamos, ressurge o caos. 
E cada recaída no caos (perdoe-me a redundância) 
é mais caótica. 

Santiago foi preso durante a ditadura uruguaia e passa a sentir a vida imóvel, mas ela continua correndo solta lá fora enquanto ele trata de recriá-la em cada detalhe, com imagens, em palavras. É um pouco angustiante que o contato com o mundo vivo e feroz que ele deixou aconteça apenas por cartas casuais, que são suas janelas. É assim que ele consegue sobreviver, alimentando suas figuras amadas, Graciela e Beatriz. 

Quando se tem que ficar irremediavelmente parado, 
é impressionante a imobilidade mental que se pode adquirir. 
Pode-se ampliar o presente tanto quanto se quiser, 
ou lançar-se vertiginosamente para o futuro, 
ou dar marcha ré, que é mais perigoso porque lá estão as lembranças, 
todas as lembranças, as boas, as regulares e as execráveis. 
Lá está o amor, ou seja, está você, 
e as grandes lealdades e também as grandes traições. 
Lá está o que a pessoa podia fazer e não fez, 
e também o que podia não fazer e fez. 

A Graciela é distante porque não chega a me emocionar, quando poderia ter sido capaz. Confesso que desejei pensar diferente quanto aos seus sentimentos, mas não consigo entendê-la de outro jeito. Enquanto estava lendo não sentia verdade em nada sobre ela, como aconteceu também comigo em relação a Fermina Daza em O Amor nos Tempos do Cólera. Não é porque ela começa ter incerteza quanto ao seu amor por Santiago, ou porque chama isso de “não sentir mais necessidade dele”, é porque não me toca, não me convence, não encanta nem mesmo seu contato com a Beatriz. Graciela me é indiferente. E estou começando a achar que tenho criado certa aversão a personagens/vozes femininas como as dela. 

Agora já bem perto de mim, a Beatriz. Fiquei coberta de ternura todas as vezes em que encontrei a história passando por seus olhos. 


Quando acontece um apagão nos elevadores 
de arranha-céus o pânico grassa. Na minha sala, 
quando chega a hora do recreio a alegria grassa. 
O verbo grassar é um lindo verbo.
(...) 
Acho que onde meu pai está, 
na última hora da tarde deve grassar a tristeza. 
Gostaria muito que meu pai pudesse, por exemplo, 
visitar o arranha-céu onde trabalha Graciela, ou seja minha mãe. 

- 
Quando vier a anistia vamos dançar tango. 
Os tangos são umas músicas tristes 
que se dançam quando se está alegre 
e assim se fica triste de novo. 

Sim, o tempo e a distância não só podem como mudam quem amamos. As ruas mudam, os estranhos são mais estranhos, as flores nascem em outros jardins, o tempo já não é o mesmo lá. Até o azul é menos – ou mais – azul. Então a gente percebe que não fez falta, que a par de nós o mundo continua, as estações se cumprem. Eu sabia que as palavras do Benedetti teriam força para cumprir primavera em mim mesmo agora, mesmo assim. Eu só não sabia que ia ser tão... ninguém precisa estar entre quatro paredes para se sentir um exilado. 


a primavera é como um espelho 
mas o meu está com a ponta quebrada / era inevitável 
não ia sair inteirinho desse bem nutrido quinquênio / 
mas apesar da ponta quebrada 
o espelho serve 
a primavera serve

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Espelho

abril
nem pétala
qual flor?

em mim
não se cumprem
estações.


domingo, 31 de março de 2013

Revelando Alice VI

Alice foi ser um poema secreto
desenhado com palavras curtas
e sem voz,
mas eu sei o tom
que a levou.

Nada de coelhos!
Alice seguiu o vento,
queria aprender a dançar

tão menina
eu a vi
em passos singulares
fazendo desenhos no ar

quase mágica.

Lembro de gritar 
Alice, fica!
ela
nada de olhar

nem vi seus olhos
mas sei, começavam a transbordar
e escorria de mim 
a vida em gotas.

Era o meu fim?
o de Alice?
quem iria nos salvar?

quem vai ler o poema secreto de nós?

quando eu escrevo
a palavra amor
setenta e cinco borboletas
pousam na minha mão
e borram o papel
de um tom alaranjado.


A Revolução dos Bichos, de George Orwell

Cheguei mesmo a pensar que esse seria mais um livro de leitura abandonada, não é que a história seja ruim, no início inclusive, eu comecei a ler bem entusiasmada e até arranjei umas conversas bem legais por conta dele, além de uma versão em quadrinhos do livro, o que significa muito, já que eu sou o tipo de pessoa que usa livros e fones para se perder do mundo, para se esconder das pessoas, para não precisar falar, nunca. 

Os animais protagonizam a história que acontece em torno da Granja do Solar, na Inglaterra, onde os bichos propõem uma revolução que instauraria a tão sonhada liberdade, queriam o fim da submissão aos homens. A mensagem de revolução é passada por um porco, o velho Major, animal mais respeitado de toda a fazenda, e abraçada pelos outros porcos, considerados a “intellingentsia do mundo animal”. Responsabilizam-se por manter o ideal de revolução vivo e, mais que isso, por construírem o que seria a sociedade ideal, próspera, onde todos os bichos seriam iguais, ajudando uns aos outros mutuamente e livres da submissão ao gênero humano, afinal: Quatro pernas bom, duas pernas ruim.

O acontece no plano real, no entanto, não foi bem o que todos os animais sonharam ao ouvirem, naquela noite inspiradora, o velho Major. E mesmo naquele ambiente de medo e insegurança que com o tempo se instaurou na Granja, os animais continuavam acreditando que aquele tempo ainda era melhor que o de Jones e o essencial era evitar que os humanos retornassem ao controle. E então, eu que pensei em desistir do livro, até fiquei um tanto emocionada quando o cavalo Sansão foi levado da fazenda (boba, podem dizer!):

“ “Camaradas! Camaradas!”, gritavam. “Não levem um irmão para essa morte!” Porém os brutos, estúpidos, ignorantes demais para entender o que acontecia, limitaram-se a murchar as orelhas e apertar o passo. A cara de Sansão não reapareceu mais na janela. Alguém pensou em correr à frente e fechar a porteira das cinco barras, mas era tarde demais, pois logo o carroção atravessava a porteira e desaparecia rapidamente na estrada. Sansão nunca mais foi visto.” 

O livro é visivelmente uma sátira sobre o período de ditadura stalinista, o jogo das palavras é simples, certeiro, não encobre, é a verdade nua e crua mesmo, doendo a quem doer. Mesmo com toda ambientação política que o livro traz e faz pensar, o que em mim ficou foi um trecho lá do início, que chega a dar um nó na cabeça se parar para pensar muito: será essa a ordem natural das coisas? Não só o espaço político, o poder, mas as pessoas mesmo, a visão de mundo, o certo, o errado... Desculpem, mas eu não acredito em revolução alguma, nunca acreditei, e se a única viável é o amor, tem dias que mesmo essa parece impossível de acontecer, mas não deixem de acreditar também, né, quem sabe... 

“A República dos Bichos, que o Velho Major havia previsto, quando os verdes campos da Inglaterra não mais seriam pisados por pés humanos, era coisa em que ainda acreditavam. O dia havia de chegar. Podia ser mais cedo ou mais tarde, talvez não acontecesse durante a vida de nenhum dos animais de então, mas havia de chegar.”
           
           

O susto

Tocava tudo apertando os olhos bem devagar. A luz lhe fazia manhã. Sentou-se na cama, o frio do chão sentia seus pés. Seis passos até porta. Girou a maçaneta. O susto: era o amor. Sentou chorando ali mesmo. E agora, o que eu vou fazer com isso?

quinta-feira, 28 de março de 2013

a vida que a gente perde, todo dia

a lua me dava água na boca
gota a gota
pingava estrelas dos olhos

depois
nunca mais
ele acordou

e eu
tive que ir.

Revelando Alice V


tem instantes
Alice é tão feliz, tão
que eu chego mesmo a acreditar 
no país das maravilhas,


para sempre.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Convite

O vento dança
a valsa invisível
dos meus dias

Quando faz
bagunça nos cabelos
eu sorrio porque sei
é ele me chamando
para entrar no ritmo
para caber na dançar
e ir

Mas quando faz
bagunça nos pensamentos
nossa!
eu brigo, choro
fecho a janela
intento dormir

sonho sendo pássaro
dançando juntinho
ao vento fresco
que me leve
o coração.


domingo, 10 de março de 2013

Quero te ouvir

Porque em mim adormece uma oração
de grandes súplicas insuperáveis
em crescente e abundante querer
minha boca fria congela o verbo.

Tudo que acontece é cego
não me vê caindo
não me sabe pequena
como uma estrela que não se acende no céu.

Minhas mãos tateiam o nada
e querem fazer disso algo mais
sem culpa de não ser.

Meu espírito busca te encontrar
suave, dentro dos dias
a dizer meu nome cheirando paz.

terça-feira, 5 de março de 2013

Revelando Alice IV

Alice esconde a mulher no porão
eu vejo só a menina
teimosa, crescendo só.

Vai vivendo tudo bem guardado
grande, não cabe no país
espera, o acontecimento que vai deixá-la ser
completo
tudo a transbordar.

Alice não me deixa ir ao encontro
do abandono que não é solidão.

Alice me faz vítima e vilã de mim.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Melodia em dó maior

Então
se eu fosse
o barulhinho das folhas secas
que caem das árvores,
ecoaria em ti

bem ao sabor do vento fresco
principiando estações
jamais findáveis

ecoaria em ti
e só.

Motivo 7

porque não faz sorrir
faz gargalhar e doer a barriga
me tem em sol.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

A Mesa Voadora, de Luis Fernando Verissimo

Então eu também descobri que não escolho livros que me façam sorrir, é sempre mais para fazer doer, lagrimar e me levar ainda mais para dentro de mim. Quando perguntam eu respondo que gosto dos livros que me levam ao longe. Não é mentira, aqui dentro é tão distante, e eu sempre encontro um jeito de voltar.
 
Dessa vez foi tão diferente que chegou a ser estranho, eu ri muito com o Luis Fernando Verissimo. A Mesa Voadora é seu terceiro livro de crônicas relançado pela Editora Objetiva. O Verissimo nos aponta como verdadeiros predadores e mesquinhos quando o assunto é comida, tudo isso de forma divertidíssima. Mas como não poderia deixar de ser eu achei a poesia, ele diria que eu cheguei mesmo a ter fome dela, já que "Comer é uma forma extrema de possuir o que queremos".

"No outro final, os dois se despedem, nunca mais se veêm, e o espectro de uma possível sauce com trufas perfeitas para os champingnos recheados fica vagando entre as prateleiras, por todos os tempos".

É um livro de humor elegante, que me arrancou risos leves ao descobrir a delícia de ser um inventor de sabores.

" - Olhe, ele está de olhos fechados... e sorrtindo como um anjo!
- Deve estar pensando num novo sabor."
 
Recomendo muito a leitura, especialmente para você que assim como eu anda se doando e se doendo nas entrelinhas.
 
"Ou talvez seja uma história inspiradora: não confunda os aperitivos que o destino lhe serve com a vida, cedo ou tarde aparecerá o prato quente. Sei lá."

domingo, 24 de fevereiro de 2013

atrás dos dias
o corpo é cansado
a voz não ecoa
a vida é imóvel
mas você passa

atrás dos dias
toda espera é burra
a verdade envelhece
o sorriso é raso
e a mentira até convém

atrás dos dias
permaneço
sombra de mim

atrás do amor
penumbra
fogo
festa
cinza
fim.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Revelando Alice III

Alice chora o leite derramado e não gosta de café. Contempla mãos e ainda conta nos dedos. Tem os pés tão estranhos quanto a vontade de voar. Aperta os olhos para ver o todo, mas não me vê. Alice tem uma paixão secreta por janelas. Abertas, fechadas, de toda cor. Janelas de ônibus, de casas... Eu me pergunto quando ela irá saltá-las. Quando, Alice? Quero tanto te saber livre, tanto.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Dicionário X



Casa:

lugar do qual a gente nunca vai embora. Gente que dá vontade de morar. De paredes fortes com blocos de ternura, cheia de braços longos e riso frouxo. Número oito, na rua que faz verão todo dia. Manhãs de domingo. Aqui a gente sabe quem chega pelo som da chave girando na fechadura; pelo passos mais leves quando se aproximam da porta. É, o amor faz barulho, e bagunça também.

Vocês são minha casa, meu melhor lugar no mundo.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Motivo 6


Acontece o amor toda vez que piscamos os olhos, apertados; 
a cada passo nosso, em cada parada, estação; 
em cada nuvem que dissolve quando vem a chuva. 
O amor está acontecendo em cada sorriso largo; 
até na incerteza ele está, e reluz mais que o crepúsculo. 
O amor acontece em nossas mãos quando buscam se aquecer. 
Toma todos os meu braços; quer morar num só abraço. 

O amor está, principalmente, quando não aparente. 
Sorria!

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Coordenada

Dentro do meu norte
bem perdida
a sul de mim.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Vê?

É sobre voltar. Sobre entrar em casa, tocar os móveis, abrir as gavetas, reler os papéis velhos deixados sobre a mesa ao lado da janela que diz um vento pontual às cinco da tarde, quando gosta de cheirar as cortinas que dançam silêncio. É sobre andar cada centímetro guardado entre aquelas paredes e dar-se por satisfeita sabendo que conheceu todo espaço de novo, seu. Depois é aqui. A gente sabe onde termina e não é no fim. 

É sobre ligar todas as lâmpadas e ficar no escuro, no centro de tudo. O caos. 

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

A bem de mim

a bem de mim
fico
com quem está onde escolheu ser
finjo
como quem se esconde mas anseia por ser descoberto

a bem de mim
nada me encontra
e eu permaneço

solar.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

A hora dos invisíveis

Em verão acontecendo
alta noite
a cidade sempre sente frio.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Teoria Geral do Esquecimento, de José Eduardo Agualusa

E como esquecer? 

Não sei até que ponto isso me faz bem, até que limite isso já não é tão bom quanto me faz pensar, mas o fato é que eu leio – seja um anúncio na rua ou a última apostila debatida na aula - e sei que meus olhos estão ali caçando a poesia, querendo vê-la face a face, querendo a emoção e o ter a alma afagada e o ser um corpo em descanso. Só ela faz. Qual não foi a minha surpresa, esse livro é de beber a poesia com os olhos, sem piscar. 

“Uma nesga de sol ardendo ainda. E a noite, pouco a pouco, e o tempo se alongando sem rumo. O corpo fatigado e a noite de azul em azul.” 

- 

“A noite, como um poço, engolia estrelas.” 

O autor, José Eduardo Agualusa, já foi feliz desde o título do livro que, em mim, ficou ecoando dias, mesmo antes de conhecer o mundo dentro de suas páginas. Teoria Geral do Esquecimento... Aprender a esquecer. Então é tudo apenas hipótese, suposição? Esquecer, tão simples, não mais deixar passar pelo coração. 

A história pode até parecer comum, mas foi escrita de forma que, primeiro, inquieta por não contar tudo de um só plano, e a gente pensa que o passo dado anteriormente pode ser esquecido. Não tem acaso. E o destino? 

Ludovica Fernandes Mano é apenas Ludo, uma portuguesa morando em Angola, que antes de não gostar de enfrentar o céu, tem mesmo é o medo de enfrentar a si própria, e aqui eu lembrei do Affonso Romano de Sant'Anna em Tempo de Delicadeza: É estranho, mas, às vezes, o oponente, o mal, o invasor, o bárbaro, terminam por conferir sentido às pessoas e comunidades. O desnorteante é descobrir que o mal às vezes é imaginário, o oponente está dentro de nós e os bárbaros não virão. 

“Até a luz me é estranha. 
Um excesso de luz. 
Certas cores não deveriam ocorrer num céu 
saudável.” 

Ludo já é prisioneira em si muito antes de – após ser esquecida por Odete, sua irmã, e Orlando, seu cunhado, no apartamento no qual moravam - erguer aquela parede separando-a do resto prédio, do resto mundo, durante 28 anos. Esquecida, não gosto de pensar que eles a abandonaram em meio àquele caos, isso é uma das poucas coisas que não fica claro para mim no livro. 

Ludo abre espaço em nós. Cresce em rio, abre-se mar. Faz doer. Faz chorar. Paralisa. Traz angústia e sorriso. As sensações do mundo dela atravessam o nosso e ficam. Impossível conhecê-la e ficar imune a isso. 
“eu ostra cismo
cá com minhas pérolas 
. 
. 
. 
cacos no abismo” 

Não se deixem passar sem essa história que não é a única nesse livro fascinante. Impossível esquecer. "Esquecer é uma rendição".



segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Medida satisfativa

para o amor
urgente
tutela antecipada!

O Amor nos Tempos do Cólera, de Gabriel García Márquez

Para o meu primeiro livro do Gabriel García Márquez, depois de uma leitura não finalizada de Cem Anos de Solidão, sem dúvida, eu não podia ter começado melhor. O Amor nos Tempos do Cólera é uma história que flui, nos envolve, nos põe a sentir. O livro conta em linhas muito bem escritas a vida de Florentino Ariza, eterno apaixonado por Fermina Daza, que se casa com Juvenal Urbino. Entrelinhas de amores, recheado pela história do tal grande amor que... existe!, existe?, existe... 

“Não se atreveu a voltar a cabeça, porque estava sentada entre o pai e a tia, e teve que se dominar para que não percebessem sua perturbação. Mas na desordem da saída sentiu-o tão iminente, tão nítido no tumulto, que uma força irresistível a obrigou a olhar por cima do ombro quando abandonava o templo pela nave central, e então viu a dois palmos de seus olhos os outros olhos de gelo, o rosto lívido, os lábios petrificados pelo susto do amor. Transtornada por sua própria audácia, se agarrou ao braço da tia Escolástica para não cair, e esta sentiu o suor glacial da mão através da mitene de renda, e a reconfortou com um sinal imperceptível de cumplicidade sem condições. Em meio ao estrondo dos foguetes e dos tambores, das lanternas coloridas nos portais e clamor das multidões sedentas de paz, Florentino Ariza vagou feito um sonâmbulo até o raiar do dia vendo a festa através das lágrimas, aturdido pela alucinação de que era ele e não Deus que tinha nascido aquela noite.” 

O amor acontece audível ainda quando parece parado no espaço. Acontece. É imóvel, mas desliza sobre o tempo. Para Florentino Ariza foi assim que existiu, fincou e criou raízes tão profundas que se espalharam dentro de seus cinquenta e um anos, nove meses e quatro dias. 

Em O Amor nos Tempos do Cólera eu me vi apaixonada não pelos personagens, nem pela história em si, e sim por esse sentimento que nascia entre o Florentino Ariza e sua deusa Corada, um amor que descobria a direção dos ventos para que pudesse ser ouvido, um amor com forma, feito desenho lírico que cabia em linhas infinitas de noites luzentes. Mas foi também em O Amor nos Tempos do Cólera que se dissolveu, finalmente, toda a figura do herói romântico grudada em mim. Florentino Ariza está longe deste quadro emoldurado do amor e, confesso, ficava um tanto decepcionada ao sabê-lo com outras mulheres, cheguei mesmo a duvidar que fosse amor o que ele julgava sentir por Fermina Daza. 

“Esta certeza esmagadora aumentou a ansiedade de Florentino Ariza, que no auge do gozo tinha tido uma revelação na qual não podia acreditar, que se negava mesmo a admitir, e era que o amor ilusório de Fermina Daza podia ser substituído por uma paixão terrena.” 

Ela, por sua vez, em nenhum momento chega a me convencer. O seu sentimento por Florentino Ariza – e mesmo pelo Juvenal Urbino, que lhe tinha um amor alegre e diário - sempre me soou vago, sem raiz, por seus esforços aquela relação nunca daria frutos. O seu amor parecia uma flor de ontem, flor que o Florentino Ariza fez nascer no amanhã. Fez florescer no presente, e cuidaria por toda a vida. 

“Tinha que ensiná-la a pensar no amor como um estado de graça que não era meio para nada, e sim origem e fim em si mesmo.” 

A beleza deste livro me deixou muda. Cada palavra foi desenhada para ser exatamente onde está e nos faz sentir pele, dor, olhos, mãos, cheiro, amores. A história nos leva por tantos caminhos sem nos deixar perdidos, nos conta miudezas, nos encontra, nos descansa num ponto sem fim: Amor.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Eu te amo pelo verso de mim

Aline é a pessoa mais parecida comigo que conheço, só que do lado do avesso. É bonito que seja assim porque sei mais quem somos, assim sei de ti e até me reconheço. Aline é alegria e brincadeiras pela casa, riso solto. Aline é despreocupação, é simples e, embora eu saiba que o simples nem sempre é fácil, é muito fácil gostar de você. Amar.

Aline é de se doar como ninguém, eu sei doer em cada canto de mim. Ela parece não saber da sensibilidade em seus olhos de menina e vai ao mundo sem armaduras.

Eu só caibo em ser Alice, e Aline cabe muito bem em mim.

Para Aline, minha metade menor maior de mim.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Poema para ganhar São Paulo

Eu, que nunca te toquei,
sei que existes quente
entre estas avenidas
sem marcar distâncias

sei do cheiro líquido
dos dias cinzas
que pulsam vidas

sei das madrugadas
longas
de quem nunca esteve.

Tenho São Paulo em mim
nos abraços
que ainda perecem na espera
no céu que cresce
e se espalha
fazendo ponte de azul
entre o aqui
e o infinito.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

quero a palavra
vazia
repartindo meu corpo
em partículas invisíveis

quero a palavra sem voz
gritando meu nome

quero a palavra inteira
que não caiba em mim
que me transborde
que me espalhe
que me leve

leve...

quero a palavra
crua
cheia de verdades
doendo
a quem doer

quero a palavra
não a mim.

Cheia


luz amarela
sorri em teus olhos
eu que de mim estou cheia
já não espero
vou.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Alguém ama Marina

Talvez ela nem imagine, mas alguém a ama e gritou para quem quisesse ler: MARINA TE AMO. Assim mesmo, em letras garrafais! Um amor enorme ali aos olhos do mundo... quem poderia contar dos dois? Desejei sabê-los. 

Por um momento eu quis ser Marina, quis estar naquela paisagem, criei molduras, escolhi cores, descansei naquele sonho de amor como se... mas eu acordei Alice. Marina ficou no muro para fazer o mundo fantasiar um amor que é só seu.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Palavras do coração

Tenho uma artéria lírica
quando ela se rompe
sagram poemas de mim.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Motivo 5


te ver crescer no mundo
te ver crescer em mim.

te amo!

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Uma vida, mas se parece com um poema

Preciso respirar ao ler cada palavra para que cada uma ocupe seu lugar em mim. A pulsação dos pontos, a respiração dos medos nas vírgulas, a textura das frases soltas que de longe não fazem qualquer sentido, fazem sentir. Uma vida e tem tanto a me dizer, mas não ouço, insisto com a palavra que não acredita, com o verbo que não age, insisto. O tempo corrido, as horas marcadas, os minutos suaves do não-dizer, o cheiro incontestável do sorriso que se exala por dias entre os objetos que enfeitam a casa, o livro que nem foi lido ainda, a carta que espera ser postada.

Uma vida aparando as arestas das rimas desfeitas. É um tanto aterrorizante ver que indiferente ao mundo, a par da multidão que nem se esbarra lá fora, aquele meu pedaço de vida seguiu sem mim. Continua. Que susto me virá levar outra vez? Quem me trará de volta? A tua vida ou a minha?

Uma vida, mas se parece com um poema que o coração suplica para ser escrito. Tudo me inclina a dizer adeus enquanto os olhos proclamam a paz de ficar.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Estás a trair o poema

Estás a trair o poema
toda vez que me esconde
nas tuas linhas curvas
e não desenha meu rosto
não me põe sorrindo

ficarão contra ti
todas as palavras que ocultas do verso
rebelião das letras

farão greve de ti a meu favor

serei salva do teu fim
serei posta pergunta
que não responderão

hei de ficar
acontecendo
hei de partir
sendo ainda parte de ti.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Lugar de ficar

Olhar o mar é um exercício de amor, 
as retinas derretem de afeto 
com o brilho do sol sobre o azul em tons variados de vida. 

Não há erro em querer ficar só 
e sentir o mundo prolongando o que é vital dentro de nós. 

Não há erro em partir 
levando nenhuma parte 
à uma parte qualquer.

domingo, 23 de dezembro de 2012

Preâmbulo em mi menor


No começo de mim eu não fui palavra. 

Não fui verbo
nem oco
nem breu
nem inteira ou grande. 

No começo de mim eu já não era 
e sentia saudade 
e dizia adeus 
e queria só o que é.

No começo de mim
a liquidez
eu me derramava como chuva
caindo de nuvens pesadas.

Não fui azul
nem estrela
nem pó.

No começo de mim eu existia
sem acontecer.


Solver

tem um mar dentro de si

quando a maré sobe
olhos tão salgados.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Faltou ar, sim, diversas vezes
mas estou aqui agora, vê?

afinal, o que é
uma falta de ar boba
diante da falta de amor?

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Diálogos [João e Marília] XIV

- É preciso que você decida ir ou ficar, fazer algo. É preciso.
- Você fala como se dependesse de mim, como se eu, apenas, tivesse que dizer. Sim. Não. Mas e você? O que você sabe sobre o amor, João? O que você sabe?
- A verdade.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Entrelinha

usava a palavra
como escudo

ele despiu o verso
letra por letra

ali estava ela
encolhida
chovendo sobre si.

domingo, 9 de dezembro de 2012

I

como será
que por teus olhos
a vida passa?
- ou fica?

como será
que em teus olhos eu passo?
- ou permaneço?

como será?
me diz!

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Temporal


afundaria o chão pisando assim com tanta força
ah, afundaria sim!
não teria mais chão
ou viveria suspensa
ou caindo
caindo
caindo...

depois
subir em nuvens
chover o mundo.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Quero mais o piano que uma mão para segurar


ecoa o mundo 
em mim
e então eu sei
que estou

-

acalenta minha mãos
embala meus sonos
meus sonhos

-

pleno
ávido
em cada extensão
do que me faz ser
inteira
ali.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Marítimo

Em rota
líquida



Corre 
um rio em mim
sem desaguar


quando eu mar
oceano.

Motivo 4

Gente que tem
o abraço feito casa
acolhe
é lar.
Sorria!

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Doa-se

a palavra
que escrevo dói
aguda

então silêncio
mas eu sinto muito
grave.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Permanência

não te inventa
em distância

de ausência
a palavra
já está cheia

e eu só
transbordo.

sábado, 24 de novembro de 2012

Varanda

na rede
entre os versos
adormecem vidas.

e eu só
descanso em Ti.

domingo, 18 de novembro de 2012

Poema


começa com
um
eu te amo

tanto

então
desenha-se
o ponto

e
é
o fim

apenas

porque
depois do ponto final
é que a vida
continua

em silêncio.

sábado, 17 de novembro de 2012

Baldado tempo

Inutilmente
os ponteiros giram
cirandando as horas
carregando os dias
descompassados
dias largos

fartas saudades
dissolvem
memórias azuis de quem não está

só eu
fico
acontecendo

longe o tempo
imóvel
sobre minhas mãos.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Uma nobreza que não me cabe

a máquina de fazer espanhóis - valter hugo mãe


e eu não posso 
salvar 
nem a mim mesma



sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Intermitente

Pensa enganar
nos versos
as marcas de fim

nasceu para
saber excessos

é oca de si.

domingo, 9 de setembro de 2012

Ir embora


Um dia acordei e era um amor tão grande que não cabia no corpo, nem comigo, quentinho, embaixo do cobertor cheio de cores que me aquece durante o inverno. Tão grande que não coube na bolsa, não coube nas mãos, não me viu chorar.

No meio da manhã esse amor cresceu tanto que não coube na distância, nem na folha em branco. Não ficou em nenhuma palavra.

Mas era um amor tão líquido no final da tarde, que cheguei a molhar os pés e refrescar o rosto. Suave, conheceu minha pele respirando medo.

Foi um lampejo à noite, o amor. De repente, num clarão, eu me descobri escuros. 

Era uma amor tão grande que deixei ir.



terça-feira, 4 de setembro de 2012

Quem lutará?

Era ele sim
magro, tão fraquinho
mal conseguia ficar de pé
cego
sem voz

dentro da noite
o amor
ainda respira
um nome

sujo.

título: skinny love - bon iver

sábado, 1 de setembro de 2012

Abraço

Ainda me assusta um pouco a força delicada do que temos. Eu não sonhei te conhecer, mas quem sonhou alinhou bem nossos caminhos, até que o teu coubesse certeiro no meu e pronto: encontro. E depois desse primeiro vieram outros tão inesquecíveis que eu me nego a aceitar esse agora com lonjuras doído de saudade. 

Você só poderia ter nascido mesmo setembro, porque anuncia alegrias. Anuncia tempo bom, primavera, cor e flor numa só pessoa. Ainda me assusta um pouco pensar saudade ou nos perdemos, mas me aquece pensar você sorrindo sol, como música. 

Quem sonhou o nosso encontro deveria ter estrelas nos olhos. É, eu gosto de te pensar presente de Deus e, assim, sem desencontros.

Feliz vida, Rafa! E sabe: eu te amo você.


Para Rafaela Toffolo, meu sorriso de sol.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Passado(R)

Olha,
se for
amor
não importa.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Rota

Se fazendo rio
se encontra
o mar.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Motivo 3


Ter você
para sempre
ter você.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

O amor nos fere de azul
para a vida inteira.

é inútil tentar se livrar
desse cheiro na pele
desse gosto terno
dessas cores quentes

toda tentativa será vã
e a cada uma
surge um rasgo enorme
por onde se derramam
pedaços de mim
sem lume

deixar doer em paz
é aceitar o tempo da dor
sem, no entanto, acomodá-la
sem dar abrigo
deixá-la, apenas,
sem brindes ou cumprimentos rotineiros

pôr a dose certa do tempo na dor
pôr a dose certa do tempo nos olhos de quem a vê
pôr a dose certa do tempo nas minhas mãos
a mão do tempo
nós!
a alegria
onde a dor?

O amor nos fere de azul
para a vida inteira.

sábado, 7 de julho de 2012

Motivo 2

Há
eternidade
dentro das pequenas horas. Sorria!

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Há este céu duro
lá fora

mergulho

águas turvas
nenhuma vida.




sábado, 30 de junho de 2012

Pele
com cheiro de poesia
rastros de ti. 

sábado, 23 de junho de 2012

- Metade
ou mais 
de mim
é bem assim 
escuridão.

- "e a consciência disso te faz grande".
ele
ela
no limite mínimo
nós.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Que há no poema?

Não há fascínio no poema
nem esquecimento
não há voz

Não há mal
nem salvação
espaço ou ausência

Não há silêncio
nem paz no poema

Que há no poema
que se faz em mim?

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Para te ferir de mim

Para te ferir e a mim

Maldigo a poesia
arranho versos no corpo
destruo tua casa.

Revelo a insensatez
de todas as verdades
deixo à mostra

face obscura
raiz do meu mal.

Para te ferir de mim

Sangrar cada gota do poema
de tua dor
beber palavras

Saciar minha sede.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Dia de Alice

Vinte e dois invernos, e Alice continua fingindo não saber que já é mesmo quem escolheu ser. Alice finge tão bem que às vezes me convence do seu aparente não estar, e eu fico perdida sem ela. Ah, eu tenho tanto medo que Alice saiba ser sem mim. Medo que algum dia ele me deixe abandonada num escuro desses qualquer e jamais eu volte a saber da luz.

Será que nada em mim é capaz de te fazer saber que não há mais "para onde"? É aqui, Alice. Fica.

terça-feira, 19 de junho de 2012

extensão indefinida

este espaço
não é só distância
neste aqui
a gente acontece
e nunca é.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Qual o cheiro?

Talvez amor
amor mesmo
tenha cheiro de céu azul em dias cinzas
cheiro de manhãs geladas com pés cobertos por meias coloridas.
Talvez tenha o cheiro de tardes frescas de verão, ou
cheiro de chuva em dias quentes.

Talvez o amor tenha cheiro de mar
e eu beba dele
sem ter sal na boca
e eu beba dele
tentando chegar a ser horizonte.



terça-feira, 12 de junho de 2012

Eu me permito pensar em desistir

Eu não preciso de teus olhos negros nem da tua paz. Não preciso do teu sorriso encobrindo meu sol, nem da tua palavra sorrateira. Não preciso que me traga flores, não quero saber do teu perfume; nem de teus passos por caminhos onde não estou.

És livre. Você não precisa das minhas mãos fracas nem dos meus pés em falso. Não precisa do meu silêncio de abismo, nem de poucas alegrias inventadas. Você não precisa de imprecisão. Não precisa saber do sal em meus olhos, nem da neblina das minhas manhãs.

Não me julgue, nem me espere, eu também já cansei: o amor que buscamos não vai chegar.


"Eu te amo e não preciso de ti;  tu me amas e não precisa de mim; 
somos um para o outro deliciosamente desnecessários."

terça-feira, 5 de junho de 2012

Estado de necessidade

Por mim
o sacrifício
foi você.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Fim de tarde

Não sei o que passa
da janela do ônibus
minha vida ou eu?

Quem passa não me vê
quem eu vejo
não me sabe
mas eu sei

Céu ardendo nos olhos
minha vida solúvel
pela janela.



sábado, 26 de maio de 2012

A música em mim


Talvez nasçam dos meus dedos todas as repostas que preciso. Todo o aconchego virá deles. Antes da música, antes dos sons, meus dedos falam no silêncio, e buscam por mim. O inteiro de mim, o completo, a substância. O que emerge é a harmonia dos mundos: o meu mundo e todos os outros. É uma profusão de sentires clareando meus olhos, soerguendo flores pelos poros, como pássaros em revoada.

Talvez nasçam dos meu dedos a Alice que quero ser. E talvez ela cante o azul de mim. E, talvez, a gente não seja vazio, nem abismo. Mas ninguém dirá de nós.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Das perguntas sem(?) resposta II

Aí eu desisto e vou embora pra sempre, pra sempre até quando?

domingo, 13 de maio de 2012

Das perguntas sem(?) resposta

Por que o nada queima em nós?

sábado, 5 de maio de 2012

O despertar


Quando abri os olhos
vi só a escuridão dos dias,
você não estava lá.
Eu quis te ter para aquecer
as mãos que, frias,
querem conter as chuvas de mim.
Não cessa o caos que se perfaz
neste céu.
E eras a estrela que insistentemente
ainda brilhava.
Eu te apaguei,
bebi teu brilho procurando curar-me.
E dias e horas, fecho os olhos,
certifico-me dos enganos
e passo como estrangeira por nós
que não se desatam.
Não és tu, apenas,
somos espera vazia
a ampliar os espaços
doídos de solidão.
Quero agora habitar
nesse poema envelhecido de pra sempre.
Assim em nós,
Assim a sós.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Diálogos [João e Marília] XIII


- Então é disso que tens medo? Irmos juntos será a nossa morte, Marília?
- Não é por ti, sou eu...
- Somos nós, por que você esquece?
- Este amor aqui dentro é estrela incompleta.
- Aqui fora ele me queima a face.
- Esses girassóis nos teus pés...
- Os lírios em teus olhos.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Contorno

O meu amor me faz mistério
de mim

oculta palavra
interrompendo
todo ritmo de fim
e volta

sedento de milagres
revela-se o corpo
incólume

declaro ser
o revés de ti
a cicatriz desse poema.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Março não trouxe as chuvas
que me prometeu,
fez-me gasta.

Vem, abril
e quebra teus encantos sobre mim
fragmentos inteiros
de um amor em fuga.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

O tempo é imóvel
mas teus olhos
passam.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Um dia desses

Hei de ver
olhos
beirando
o abismo
dos meus.

Porto
para
[a] mar.

domingo, 1 de abril de 2012

Dicionário IX


Verdade:

A verdade é um caminhozinho estreito por andam pés que coincidem, mãos que não se separam no susto da palavra dita; a verdade é substância que não necessita de escoras, existe e quer ser vista, no meio, ao fim; quando é silenciosa a verdade lê-se num abraço que abarca todo nosso ser.

A verdade é vermelha, da cor de teus olhos arrependidos.

Desencontros


Essa gente
Feito onda
A ir e só
Longe do meu eu-mar.

terça-feira, 27 de março de 2012

Duelo

Eu
contra mim
ninguém vence.

sábado, 24 de março de 2012

Branco

Minha alma a gritar
mas há quem
só veja silêncio.

terça-feira, 20 de março de 2012

Vejo ruir o outono em mim

O amarelar das lembranças
secas,
nuvens brancas nos olhos
de longe
o perto
desfolhar de ti.


domingo, 26 de fevereiro de 2012

Enquanto te escrevo

Enquanto te escrevo os carros param nos sinais de trânsito, mas meu coração não. Meu coração quase quer te revelar no tom urgente da minha voz. Enquanto te escrevo borboletas azuis voam em direção as meninas de vestido cirandando cantigas aqui no meu portão, e o relógio da igreja anuncia o tempo passar nesta tarde em que tu não estás, nem ele. Nem o tempo, que desistiu tão fácil dos nossos caminhos e anda só por aí, balbuciando que voltará certo. Enquanto te escrevo entra um vento fresquinho por minha janela e afaga meus cabelos, então eu penso com mais força em você e naquele abraço que não demos e que dói no peito quase me sufocando, não pode ser...

Enquanto te escrevo volto a fazer planos que não cumprirei, imagino se já terias tu cumprido os teus. Enquanto te escrevo eu me perco e já não sei por onde entrei e nem se quero sair disso tudo, apenas vou. Você não. Você sempre esteve aí, talvez me esperando chegar, talvez achando desnecessário que acontecêssemos. Enquanto te escrevo peço que o sonho não acabe, que a realidade nos afirme. Enquanto te escrevo imagino finais, felizes ou não.

Eu quero que um amor te floresça os pés, te aqueça as mãos, te respire, te inspire e perfume o ar com pétalas de ti. 

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Nebulosa

meus olhos ardem
ao olhar nos teus

são negros
de abismo e de escuridão
mas piscam luz, vês?

o teu amor
em mim explode
e volta a ser meu.

meus olhos ardem
longe dos teus.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Dicionário VIII

Paixão:

O sol do meio-dia que contemplamos arder em nossas mãos. De quando brindamos com sorrisos largos o que não deu pra falar. Alta estação fazendo temporada de nós.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Para o amor noturno

Quando tua alma
lua
meu ser
sol.

Porto dela

Quando voltou a caminhar pelo chão
sentiu o tempo
quentinho sob seus pés
e a segurança de,
ainda assim,
poder tocar o céu.

Em Mi(m), maior



O coração
na ponta dos dedos
e sua alma inteira
florindo Deus.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Motivo 1

Borboletas na barriga,
nos olhos,
nas mãos,
no corpo todo:
e você já quase pode voar.
Sorria!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Eu vi o amor, deles

Eu vi o amor. Sim, ele esteve aqui. Brilhava nos olhos e no sorriso dele. Escorria pela mãos e deixou rastros por onde seus pés caminharam. Eu vi o amor e ele era azul, terno, sereno. O amor chegou no cheiro das flores que ele trazia e nas palavras tímidas de surpresa.

Eu vi o amor em uma tarde de verão, envolvendo os dois naquela saudade cor de abraço.

Revelando Alice II

Alice não gosta de chá
e ainda não encontrou seu tamanho de ser.
Tem a chave
mas ainda não sabe que porta abrir.
Alice descobriu um sonho
na janela.
Leve, o vento o levou.
Alice, teimosa, quis seguir o sonho.
Continua
caindo, caindo, caindo...

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Sabor saudade

Dentro do domingo
um poema.
Dentro do poema
a lembrança
como tinta colorida
espelhando
em cor
os que longe
dos olhos
iluminam o coração.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Vem e diz

Vem, e diz que jamais partirás novamente.
Vem, e diz que não voltaremos que é daqui para os caminhos além do feliz.
Vem, e diz que se pode entender o meu avesso.
Vem, e diz que o longe é aqui, amor, e ninguém nos alcançará.
Vem, e diz que não há outro jeito, senão esse ser assim do nosso jeito.
Vem, e diz que não existe espera porque já somos e
toda lua nos quer iluminar em noites de verão.
Vem, e fica aqui, assim, no meu abraço
envolvido na delicadeza dessa nossa composição em adágio,
sem dizer nada, para que o tempo nos esqueça e a gente não passe nunca.