terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Oco é uma palavra vazia

ninguém me respondia
quantos infinitos
escondem o horizonte?

quem me olha
nos olhos vê mais que um caminho?


terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Alameda das Flores


Era como se eu precisasse
lembrar de quem eu sou
do meu lugar
porque naquela avenida
ainda correm meus pés
ainda o vento sopra em meu corpo
ainda faz nós no cabelo
nas mãos

Era como se precisasse
lembrar que andar sobre andar
cada degrau ali sabe a cor perdida dos meus dias
todas as paredes têm meu cheiro
a paisagem da janela ainda é minha
o som da bola embaralhada entre os gols
dos meninos
só eu sei tocar!
esses bancos de cimento vazio
estão à minha espera

era como se quisesse lembrar
estou aqui
você não.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

O lado direito

quando o sal cristalizar meu corpo
amanhã
não serei eu

o que palpita no peito
dança
nada diz

quero viver a mim
pelo avesso
vestir a cor que grassa
o verso.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Eu sei a cor do vazio

Quando chegou eu desenhava o infinito. Com a ponta do dedo dava forma ao universo inteiro, todos, ninguém me conhecia. O vazio era um lugar sem cor e longe, dava para ver a poeira cobrindo meu corpo e eu empurrava toda mão que me queria chegar. Não vou ficar aqui muito tempo, o vazio é triste e eu tenho medo de ser triste também. Olha, você me perdoa?

Quando chegou eu assistia ao vento dançar. Foi a maior conquista daqueles anos. Todos, ninguém me reconhecia. Você é o vazio de si mesma. Vem, deita aqui, eu não tenho medo, vou ficar.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Diálogos [João e Marília] XVI

- A  verdade é una mas divisível, como o amor, Marília, esse que te causa medo. Esse que colocas tão distante quando o tens ao alcance de um abraço. O que você faz, também, sozinha, com tanto amor nas mãos, com tanto amor escorrendo de ti, com tanto amor perfumando teus cabelos? Me diz!


sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Fazia um tempo bom

era tanto mar
dentro de mim
sinto dores incuráveis
que medo de ser horizonte.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Eu não tenho sete vidas

Aqueles poemas nunca escritos deram de despertar todos de uma só vez. Andaram a me perseguir, gritam meu nome pelas ruas em plena manhã. Dou passos largos, evito correr mas continuo suando muito. Eles não param, velam meu sono e quando percebo: sonho. Estou no topo da escada, eles me puxam pelo braço. O abraço. Grito. Não pode ser. Choro. Acenderam a luz, vasculharam todo meu quarto mas não tinha ninguém. Corria um rio, eu era salgada e sangrava das mãos. Todos cheiravam como o vazio e cantavam enquanto eu dormia segurando a mão que dizia adeus. Tão longe.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Diálogos [João e Marília] XV

- A verdade não é saudável. Não quando digerida assim, João, sem companhia. Não quando nem mesmo pode me salvar.
- Mas a verdade brota de ti sem que disso você tenha controle. Eu sinto o cheiro dela na sua voz, não faça disso pouco, Marília. A mentira não terá por ti misericórdia. Renda-se!

sábado, 30 de novembro de 2013

Motivo 9

tem uma casquinha de sorvete no céu, vê?
sorria!

domingo, 24 de novembro de 2013

Esconderijo

Construí poemas
para te guardar
verso sobre verso
ergui lugares altos
longínquos

A queda
foi inevitável
não se culpe

Ao me levantar
nas linhas
em desatino
a vida será outra estrofe
líquida
escorrendo de minhas mãos
em der(rota)
um sopro de sacrifício.

sábado, 26 de outubro de 2013

Cadeira de balanço

No quintal da Vó não tinha pitangueira nem hortinha
eu não corria descalça na terra úmida
não ficava observando as minhocas ou galinhas

O quintal era seco
sem fantasia
longe de tudo

Longe
todos os abraços
naquele mundo tão frígido

Nenhuma paz descansava no silêncio
nenhuma história acordava para mim.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Eu não vejo fim

Existe quem só veja pele
eu enxergava verso
em cada linha do teu rosto
eu encontrava caminho
em tuas mãos

Houve quem só vislumbrasse
um corpo magro e fixo neste tempo
eu te vestia poesia
e sei tuas letras
tua forma
para além do espaço.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

deitada aqui
aos pés da madrugada
eu apago o céu
com a mesma mão que desenhando sonhos
encontro a ti

depois
tateando no escuro
toco em sol
ardendo a ponta dos dedos
lambendo as lágrimas
que escorrem da lua


terça-feira, 1 de outubro de 2013

Para além do infinito tem você



Para Elícia Camilly, minha cor feliz.

A julgar pelo que somos
há quem diga
você tem tudo de mim

Eu, desconfio
mas a bem da verdade
é você quem tem
o País das Maravilhas nas mãos

Um mundo mágico 
onde a infância persiste
e revela o encanto.

A julgar pelo que somos
você deveria ter vindo de mim
e veio para mim
vestida em amor
instaurando paz.

Eu te amo pelo que és, Elícia
esta forma singular
inventando a Alice
que eu desejo ser.


segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Num tempo de agora

uma estrela pequenina
que apertei em minha mão
furou minha pele
habitou em mim

adormeceu
sangrando lágrimas
me deixei partir

sinto tanta saudade de ser inteira.

Estes olhos, esta casa desabitada

Estes olhos que agora vejo
não são meus
resignaram-se a horizontes pequenos
não sabem mais o azul
transbordam invisíveis

Estes olhos que agora me veem
me tocam pela metade
e o frio da pele
cala toda voz

Estes olhos que agora adormecem
sonham comigo
em dois e par
singulares criaturas por trás das névoas

Nestes olhos o lugar
caos do mundo
esboço de uma paz
inventada.


sábado, 14 de setembro de 2013

Apenas um ruído

Um ruído atravessa a noite. 

Eu ainda sei cantar horas madrugada adentro
apertando o tempo para caber em mim
apertando os olhos para caber o sono 
para nascer o sonho.

Um ruído corta o céu enquanto amanheço 
banho quente quase a vapor
depois ainda sinto o sorriso 
quando ninguém vê  
ensaio danças no vazio

passos de sol.

Entarderço sem dizer uma palavra 
som inaudível dilatando espaços.

Um ruído me atravessa
ainda sou inteira
enquanto ouço
envelhecer o tempo.




domingo, 8 de setembro de 2013

Sonho real

No meu sonho eu era você. E você me dizia que estava voltando. Que a gente ia enfim aprender a dançar. Que eu não iria fugir. Que a gente não iria fugir. Que a gente ia ser. Então nós acontecíamos. No céu, no meio do jardim, nas ruas, em todas as cidades do mundo. A gente florescia. E da flor o abraço. Depois nós íamos diminuindo, pouco a pouco. Aí meu coração ficava enorme de medo e eu calava. Cada vez mais a gente sumia no meio da multidão. Eu vi que nos tornávamos pó mas depois só enxergava estrelas, guardadas embaixo da cama porque você disse serviria para espantar fantasmas. A gente não disse adeus e o vento soprava tão forte. Quando abri os olhos era uma explosão de cores, sem estrela, sem nada. Só brilho.
sob minha pele
sinto despertar primaveras.



segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Confissões de agosto

nem alegre
nem triste
muito menos poeta.

alice,
apenas.

e isto nem é tudo.