quarta-feira, 20 de junho de 2012

Dia de Alice

Vinte e dois invernos, e Alice continua fingindo não saber que já é mesmo quem escolheu ser. Alice finge tão bem que às vezes me convence do seu aparente não estar, e eu fico perdida sem ela. Ah, eu tenho tanto medo que Alice saiba ser sem mim. Medo que algum dia ele me deixe abandonada num escuro desses qualquer e jamais eu volte a saber da luz.

Será que nada em mim é capaz de te fazer saber que não há mais "para onde"? É aqui, Alice. Fica.

terça-feira, 19 de junho de 2012

extensão indefinida

este espaço
não é só distância
neste aqui
a gente acontece
e nunca é.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Qual o cheiro?

Talvez amor
amor mesmo
tenha cheiro de céu azul em dias cinzas
cheiro de manhãs geladas com pés cobertos por meias coloridas.
Talvez tenha o cheiro de tardes frescas de verão, ou
cheiro de chuva em dias quentes.

Talvez o amor tenha cheiro de mar
e eu beba dele
sem ter sal na boca
e eu beba dele
tentando chegar a ser horizonte.



terça-feira, 12 de junho de 2012

Eu me permito pensar em desistir

Eu não preciso de teus olhos negros nem da tua paz. Não preciso do teu sorriso encobrindo meu sol, nem da tua palavra sorrateira. Não preciso que me traga flores, não quero saber do teu perfume; nem de teus passos por caminhos onde não estou.

És livre. Você não precisa das minhas mãos fracas nem dos meus pés em falso. Não precisa do meu silêncio de abismo, nem de poucas alegrias inventadas. Você não precisa de imprecisão. Não precisa saber do sal em meus olhos, nem da neblina das minhas manhãs.

Não me julgue, nem me espere, eu também já cansei: o amor que buscamos não vai chegar.


"Eu te amo e não preciso de ti;  tu me amas e não precisa de mim; 
somos um para o outro deliciosamente desnecessários."

terça-feira, 5 de junho de 2012

Estado de necessidade

Por mim
o sacrifício
foi você.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Fim de tarde

Não sei o que passa
da janela do ônibus
minha vida ou eu?

Quem passa não me vê
quem eu vejo
não me sabe
mas eu sei

Céu ardendo nos olhos
minha vida solúvel
pela janela.



sábado, 26 de maio de 2012

A música em mim


Talvez nasçam dos meus dedos todas as repostas que preciso. Todo o aconchego virá deles. Antes da música, antes dos sons, meus dedos falam no silêncio, e buscam por mim. O inteiro de mim, o completo, a substância. O que emerge é a harmonia dos mundos: o meu mundo e todos os outros. É uma profusão de sentires clareando meus olhos, soerguendo flores pelos poros, como pássaros em revoada.

Talvez nasçam dos meu dedos a Alice que quero ser. E talvez ela cante o azul de mim. E, talvez, a gente não seja vazio, nem abismo. Mas ninguém dirá de nós.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Das perguntas sem(?) resposta II

Aí eu desisto e vou embora pra sempre, pra sempre até quando?

domingo, 13 de maio de 2012

Das perguntas sem(?) resposta

Por que o nada queima em nós?

sábado, 5 de maio de 2012

O despertar


Quando abri os olhos
vi só a escuridão dos dias,
você não estava lá.
Eu quis te ter para aquecer
as mãos que, frias,
querem conter as chuvas de mim.
Não cessa o caos que se perfaz
neste céu.
E eras a estrela que insistentemente
ainda brilhava.
Eu te apaguei,
bebi teu brilho procurando curar-me.
E dias e horas, fecho os olhos,
certifico-me dos enganos
e passo como estrangeira por nós
que não se desatam.
Não és tu, apenas,
somos espera vazia
a ampliar os espaços
doídos de solidão.
Quero agora habitar
nesse poema envelhecido de pra sempre.
Assim em nós,
Assim a sós.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Diálogos [João e Marília] XIII


- Então é disso que tens medo? Irmos juntos será a nossa morte, Marília?
- Não é por ti, sou eu...
- Somos nós, por que você esquece?
- Este amor aqui dentro é estrela incompleta.
- Aqui fora ele me queima a face.
- Esses girassóis nos teus pés...
- Os lírios em teus olhos.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Contorno

O meu amor me faz mistério
de mim

oculta palavra
interrompendo
todo ritmo de fim
e volta

sedento de milagres
revela-se o corpo
incólume

declaro ser
o revés de ti
a cicatriz desse poema.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Março não trouxe as chuvas
que me prometeu,
fez-me gasta.

Vem, abril
e quebra teus encantos sobre mim
fragmentos inteiros
de um amor em fuga.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

O tempo é imóvel
mas teus olhos
passam.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Um dia desses

Hei de ver
olhos
beirando
o abismo
dos meus.

Porto
para
[a] mar.

domingo, 1 de abril de 2012

Dicionário IX


Verdade:

A verdade é um caminhozinho estreito por andam pés que coincidem, mãos que não se separam no susto da palavra dita; a verdade é substância que não necessita de escoras, existe e quer ser vista, no meio, ao fim; quando é silenciosa a verdade lê-se num abraço que abarca todo nosso ser.

A verdade é vermelha, da cor de teus olhos arrependidos.

Desencontros


Essa gente
Feito onda
A ir e só
Longe do meu eu-mar.

terça-feira, 27 de março de 2012

Duelo

Eu
contra mim
ninguém vence.

sábado, 24 de março de 2012

Branco

Minha alma a gritar
mas há quem
só veja silêncio.

terça-feira, 20 de março de 2012

Vejo ruir o outono em mim

O amarelar das lembranças
secas,
nuvens brancas nos olhos
de longe
o perto
desfolhar de ti.