E como esquecer?
Não sei até que ponto isso me faz bem, até que limite isso já não é tão bom quanto me faz pensar, mas o fato é que eu leio – seja um anúncio na rua ou a última apostila debatida na aula - e sei que meus olhos estão ali caçando a poesia, querendo vê-la face a face, querendo a emoção e o ter a alma afagada e o ser um corpo em descanso. Só ela faz. Qual não foi a minha surpresa, esse livro é de beber a poesia com os olhos, sem piscar.
“Uma nesga de sol ardendo ainda. E a noite, pouco a pouco, e o tempo se alongando sem rumo. O corpo fatigado e a noite de azul em azul.”
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“A noite, como um poço, engolia estrelas.”
O autor, José Eduardo Agualusa, já foi feliz desde o título do livro que, em mim, ficou ecoando dias, mesmo antes de conhecer o mundo dentro de suas páginas. Teoria Geral do Esquecimento... Aprender a esquecer. Então é tudo apenas hipótese, suposição? Esquecer, tão simples, não mais deixar passar pelo coração.
A história pode até parecer comum, mas foi escrita de forma que, primeiro, inquieta por não contar tudo de um só plano, e a gente pensa que o passo dado anteriormente pode ser esquecido. Não tem acaso. E o destino?
Ludovica Fernandes Mano é apenas Ludo, uma portuguesa morando em Angola, que antes de não gostar de enfrentar o céu, tem mesmo é o medo de enfrentar a si própria, e aqui eu lembrei do Affonso Romano de Sant'Anna em Tempo de Delicadeza: É estranho, mas, às vezes, o oponente, o mal, o invasor, o bárbaro, terminam por conferir sentido às pessoas e comunidades. O desnorteante é descobrir que o mal às vezes é imaginário, o oponente está dentro de nós e os bárbaros não virão.
“Até a luz me é estranha.
Um excesso de luz.
Certas cores não deveriam ocorrer num céu
saudável.”
Ludo já é prisioneira em si muito antes de – após ser esquecida por Odete, sua irmã, e Orlando, seu cunhado, no apartamento no qual moravam - erguer aquela parede separando-a do resto prédio, do resto mundo, durante 28 anos. Esquecida, não gosto de pensar que eles a abandonaram em meio àquele caos, isso é uma das poucas coisas que não fica claro para mim no livro.
Ludo abre espaço em nós. Cresce em rio, abre-se mar. Faz doer. Faz chorar. Paralisa. Traz angústia e sorriso. As sensações do mundo dela atravessam o nosso e ficam. Impossível conhecê-la e ficar imune a isso.
“eu ostra cismo
cá com minhas pérolas
.
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cacos no abismo”
Não se deixem passar sem essa história que não é a única nesse livro fascinante. Impossível esquecer. "Esquecer é uma rendição".

Quero muito começar a ler autores africanos Agualusa, Mia couto, Odjiaki, Chimamanda. Todos eles parecem ter uma forma muito poética de narrar a história.
ResponderExcluirAdorei a resenha, tão poética quanto o livro deve ser.
Verdade, já li o Mia Couto e amo. Do Ondjaki li muito pouco, mas quero muio ler mais. Eu sei que perco em querer ler só poesia, mas não dá para querer outra coisa. hahaha
ExcluirQue bom que gostou da resenha, fico feliz. Obrigada!
Alice, se Luan estivesse aqui diria "Que reeeeeeeesenha", mas como não tá, eu digo: Que reseeeeeenha. rs
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