Para o meu primeiro livro do Gabriel García Márquez, depois de uma leitura não finalizada de Cem Anos de Solidão, sem dúvida, eu não podia ter começado melhor. O Amor nos Tempos do Cólera é uma história que flui, nos envolve, nos põe a sentir. O livro conta em linhas muito bem escritas a vida de Florentino Ariza, eterno apaixonado por Fermina Daza, que se casa com Juvenal Urbino. Entrelinhas de amores, recheado pela história do tal grande amor que... existe!, existe?, existe...
“Não se atreveu a voltar a cabeça, porque estava sentada entre o pai e a tia, e teve que se dominar para que não percebessem sua perturbação. Mas na desordem da saída sentiu-o tão iminente, tão nítido no tumulto, que uma força irresistível a obrigou a olhar por cima do ombro quando abandonava o templo pela nave central, e então viu a dois palmos de seus olhos os outros olhos de gelo, o rosto lívido, os lábios petrificados pelo susto do amor. Transtornada por sua própria audácia, se agarrou ao braço da tia Escolástica para não cair, e esta sentiu o suor glacial da mão através da mitene de renda, e a reconfortou com um sinal imperceptível de cumplicidade sem condições. Em meio ao estrondo dos foguetes e dos tambores, das lanternas coloridas nos portais e clamor das multidões sedentas de paz, Florentino Ariza vagou feito um sonâmbulo até o raiar do dia vendo a festa através das lágrimas, aturdido pela alucinação de que era ele e não Deus que tinha nascido aquela noite.”
O amor acontece audível ainda quando parece parado no espaço. Acontece. É imóvel, mas desliza sobre o tempo. Para Florentino Ariza foi assim que existiu, fincou e criou raízes tão profundas que se espalharam dentro de seus cinquenta e um anos, nove meses e quatro dias.
Em O Amor nos Tempos do Cólera eu me vi apaixonada não pelos personagens, nem pela história em si, e sim por esse sentimento que nascia entre o Florentino Ariza e sua deusa Corada, um amor que descobria a direção dos ventos para que pudesse ser ouvido, um amor com forma, feito desenho lírico que cabia em linhas infinitas de noites luzentes. Mas foi também em O Amor nos Tempos do Cólera que se dissolveu, finalmente, toda a figura do herói romântico grudada em mim. Florentino Ariza está longe deste quadro emoldurado do amor e, confesso, ficava um tanto decepcionada ao sabê-lo com outras mulheres, cheguei mesmo a duvidar que fosse amor o que ele julgava sentir por Fermina Daza.
“Esta certeza esmagadora aumentou a ansiedade de Florentino Ariza, que no auge do gozo tinha tido uma revelação na qual não podia acreditar, que se negava mesmo a admitir, e era que o amor ilusório de Fermina Daza podia ser substituído por uma paixão terrena.”
Ela, por sua vez, em nenhum momento chega a me convencer. O seu sentimento por Florentino Ariza – e mesmo pelo Juvenal Urbino, que lhe tinha um amor alegre e diário - sempre me soou vago, sem raiz, por seus esforços aquela relação nunca daria frutos. O seu amor parecia uma flor de ontem, flor que o Florentino Ariza fez nascer no amanhã. Fez florescer no presente, e cuidaria por toda a vida.
“Tinha que ensiná-la a pensar no amor como um estado de graça que não era meio para nada, e sim origem e fim em si mesmo.”
A beleza deste livro me deixou muda. Cada palavra foi desenhada para ser exatamente onde está e nos faz sentir pele, dor, olhos, mãos, cheiro, amores. A história nos leva por tantos caminhos sem nos deixar perdidos, nos conta miudezas, nos encontra, nos descansa num ponto sem fim: Amor.

Sua resenha que me emudeceu. Parabéns por escrever tão bem e de forma tão bela!
ResponderExcluirBeijos