segunda-feira, 24 de novembro de 2014

alice
não se case
sem me convidar
não esquece o chá sobre a mesa
as horas a passar
tudo em branco enquanto eu não chegar
dê as cartas
é você quem manda
alice
faz tanto medo
se você não me esperar
o que sobra para fazer
sem você
alice
que nuvem vai me ouvir
quem vai chorar por nós
quem mais vai duvidar
no sono
sonho.

domingo, 23 de novembro de 2014

enquanto espero o próximo poema chegar
não consigo ver
não consigo saber como
nem imagino
se a próxima porta é virando a esquina
se da janela continua passado essas imagens
é ali que vou te encontrar?

não consigo ser nada
enquanto o próximo poema não vem
toda essa gente lá fora procura alguém
se  não posso escrever como existirão?
se não há linhas
dança o vazio

aqui espero, envelheço
e encontro no espelho a vontade de ficar
enquanto ela
ela só
vai.


sexta-feira, 21 de novembro de 2014

queria saber quem levou
cadê
a vida azulzinha que a gente inventava
para deixar o céu tranquilo
as lágrimas que a gente guardava
para não afogar uma a outra
a gente se deixou ir
aonde andar o coração
não esquece de acender as estrelas

eu sinto a tua falta, menina
é quase egoísmo
estou aprendendo a nadar.


domingo, 9 de novembro de 2014



-
por mais líquidos misteriosos que eu beba
por mais bolos que eu coma
tem uma porta através da qual
alice nunca consegue passar

tamanho algum suporta
a dor de ser.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

minto
a minha maior verdade
não tem voz
nem vez
em meus dias ruins
as aves continuam
a exibir o peso do seu voo
leve

porque canto
minto
a minha maior verdade:

falso poema.

sábado, 1 de novembro de 2014

Lelena,

sendo alice eu deveria saber te contar todos os segredos sobre o país das maravilhas, no entanto, ainda não sou capaz. Talvez por isso eu faça birra e tente fingir que ele não existe ou que é quase impossível permanecer por lá. Não acredite em mim, Lelena, não perca o coelho de vista! Porque quando eu vejo suas mãos, grandiosas, meu coração fica cheio da certeza de que, com elas, será você a construir novo amor entre nós.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

penso
sobretudo o que não disse
foi capaz de construir
distâncias ainda mais longas
entre nós
sobretudo o que eu não disse
a maior verdade

no silêncio
minha voz dançava para ti

penso
sobre teus braços
acho incoerente pesar
a dor do mundo
quando é você quem tem
nos olhos
segredos de céu

amanhecendo.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Diálogos [João e Marília] XVII

- Por que o amor tem que ser esse monstro de olhos enormes a mirar os meus? Por que ele não desperta coragem alguma ainda? Por que essa agonia no peito e caminhos que faltam? Por que ele não canta sua voz para mim? Quando eu estarei pronta para assumir as minhas verdades, João?

sábado, 25 de outubro de 2014

há horas brancas
a espera da claridade
há noites líquidas
por onde navego
imóvel
há uma única face serena
que me faz companhia.

eu sei que procuras
dentro das horas longas do dia
minha voz
nos rostos mais desconhecidos
da cidade
o castigo é pior
pois veja
amor não é capa nas revistas
ou manchete nos jornais

se tiver medo
Lei(a)penas
meu olhar.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Nenhuma lembrança azul


Na minha adolescência eu vivia com dores nas pernas. Dor com hora marcada quase diariamente. Chorava que só. Quando eu chorava sentia vontade de dormir, então a dor passava. O médico dizia que era dor do crescimento e eu nem tomei remédios. Hoje me dói o coração, inteiro. Estava pensando: é dor do crescimento? Eu não quero mais crescer, não tem remédio?

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Cactus

o amor abriu fendas enormes
no corpo dela
só consigo enxergar furinhos
e uma voz que diz:
ninguém
venha me abraçar agora!

cheia de espinhos
acredito que baste
apenas um ferido por aqui.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

começo o fim todos os dias
apago a luz
invento a luz
ponto
fim
todos os dias
você vem me resgatar
longe do fim
porto de mim
todo recomeço.
a verdade
de tão clara
marcou a pele

agora
anda exibindo
a última palavra
é minha!

cheia de culpa.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Pequenos milagres

capturar o instante exato
em que as folhas bailam
do alto ao chão
já não dói a queda

ainda carrego teu céu.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

alice
atravessa o país inteiro
a fim de provar
em si mesma
a eternidade dos anos que não viveu.
a luz que nos cortou
disformes
apagou tudo
aqui dentro

sou a escuridão do mundo.

sábado, 27 de setembro de 2014

alice
vem me cobrar um riso
que nunca foi dela
vem dizer ser dona
do que sou
nada te pertence
alice
põe açúcar
na tua dor
engole
de uma só vez
e não me
leve.

fez-se mar
no meu corpo
cheio
das ondas de ti
fez-se breu no céu
em mim
queimam as estrelas
de um tempo incurável
fez-se paz
 
do que adiantou?

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Da pronúncia


meu coração 
é quem detém competência
para pronunciar a ti
da provável existência de nós
não peço convencimento
absoluto
só o amor.


*ainda sobre as aulas de processo penal, que não estão me fazendo muito bem, não.