Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...
Se te Queres (Álvaros de Campos)
Quando eu mudo de ideia de última hora tudo acaba dando errado, muito errado. O apocalipse. Uma tragédia. Sim, também sou excessivamente dramática só que prometo: acontece tudo errado mesmo. Mas olha aqui a exceção: ter escolhido ler o Mario Benedetti esse mês. Nem é primavera, mas eu a vejo do espelho. Olhos negros e miúdos, tão grande o mundo. Chego a mirá-los e o que sei cresce por entre os dedos. Pensei: para um abril doce, deixar que as palavras façam.
Foi um belo presente conhecer o cheio de intensidades Santiago, a distante Graciela, o que tem mais cheiro de casa do que de avô, Dom Rafael, a encantadora Beatriz – impossível não se deixar apaixonar por ela, impossível! -, o Rolando Austero, de quem eu não sei dizer algo sem ser injusta, e ainda no meio deles todos ter a surpresa de encontrar as experiências do próprio Benedetti. Ao longo do livro encontramos todas essas vozes, cada uma é a história de um jeito diferente, e em muitas delas chego até a encontrar minha própria voz :
Pode ler, como eu, todas as entrelinhas?
Por isso eu disse há pouco que talvez esteja feliz
e é isso que me deixa um pouco estranho.
Estar feliz e, no entanto, não ser feliz.
Ah, nunca imaginei que estar feliz
pudesse incluir tanta tristeza, sabe?
-
Penso que todos nós, os que estamos aqui e os que estão em outras partes,
vivemos um desajuste. Uns mais, outros menos, nos esforçamos para nos organizar,
para começar de novo, para botar um pouco de ordem em nossos sentimentos,
em nossas relações, em nossas saudades.
Mas assim que nos descuidamos, ressurge o caos.
E cada recaída no caos (perdoe-me a redundância)
é mais caótica.
Santiago foi preso durante a ditadura uruguaia e passa a sentir a vida imóvel, mas ela continua correndo solta lá fora enquanto ele trata de recriá-la em cada detalhe, com imagens, em palavras. É um pouco angustiante que o contato com o mundo vivo e feroz que ele deixou aconteça apenas por cartas casuais, que são suas janelas. É assim que ele consegue sobreviver, alimentando suas figuras amadas, Graciela e Beatriz.
Quando se tem que ficar irremediavelmente parado,
é impressionante a imobilidade mental que se pode adquirir.
Pode-se ampliar o presente tanto quanto se quiser,
ou lançar-se vertiginosamente para o futuro,
ou dar marcha ré, que é mais perigoso porque lá estão as lembranças,
todas as lembranças, as boas, as regulares e as execráveis.
Lá está o amor, ou seja, está você,
e as grandes lealdades e também as grandes traições.
Lá está o que a pessoa podia fazer e não fez,
e também o que podia não fazer e fez.
A Graciela é distante porque não chega a me emocionar, quando poderia ter sido capaz. Confesso que desejei pensar diferente quanto aos seus sentimentos, mas não consigo entendê-la de outro jeito. Enquanto estava lendo não sentia verdade em nada sobre ela, como aconteceu também comigo em relação a Fermina Daza em O Amor nos Tempos do Cólera. Não é porque ela começa ter incerteza quanto ao seu amor por Santiago, ou porque chama isso de “não sentir mais necessidade dele”, é porque não me toca, não me convence, não encanta nem mesmo seu contato com a Beatriz. Graciela me é indiferente. E estou começando a achar que tenho criado certa aversão a personagens/vozes femininas como as dela.
Agora já bem perto de mim, a Beatriz. Fiquei coberta de ternura todas as vezes em que encontrei a história passando por seus olhos.
Quando acontece um apagão nos elevadores
de arranha-céus o pânico grassa. Na minha sala,
quando chega a hora do recreio a alegria grassa.
O verbo grassar é um lindo verbo.
(...)
Acho que onde meu pai está,
na última hora da tarde deve grassar a tristeza.
Gostaria muito que meu pai pudesse, por exemplo,
visitar o arranha-céu onde trabalha Graciela, ou seja minha mãe.
-
Quando vier a anistia vamos dançar tango.
Os tangos são umas músicas tristes
que se dançam quando se está alegre
e assim se fica triste de novo.
Sim, o tempo e a distância não só podem como mudam quem amamos. As ruas mudam, os estranhos são mais estranhos, as flores nascem em outros jardins, o tempo já não é o mesmo lá. Até o azul é menos – ou mais – azul. Então a gente percebe que não fez falta, que a par de nós o mundo continua, as estações se cumprem. Eu sabia que as palavras do Benedetti teriam força para cumprir primavera em mim mesmo agora, mesmo assim. Eu só não sabia que ia ser tão... ninguém precisa estar entre quatro paredes para se sentir um exilado.
a primavera é como um espelho
mas o meu está com a ponta quebrada / era inevitável
não ia sair inteirinho desse bem nutrido quinquênio /
mas apesar da ponta quebrada
o espelho serve
a primavera serve

Mais uma excelente resenha pra me deixar com água na boca e me trazer essa urgência em ler Benedetti... Fantástico.
ResponderExcluirBjs, Larissa.
http://oelementofogo.blogspot.com.br/
Outra vez, uma resenha belíssima de se ler! Ainda mais quando você se identifica com a história do livro e com as impressões da autora da resenha sobre ele. Você consegue expressar seus sentimentos se forma límpida, meiga e bela. Parabéns, Élice!
ResponderExcluirBeijos. ;)
E agora essa urgência em ler o livro, em buscar os personagens como você o fez, quem sabe, te achar? Quem sabe, me encontrar? Ai Alice, mais um pra lista dos livros para ler esse ano...Isso quando há vários ainda na estante me aguardando.
ResponderExcluirSinto que Benedetti vai furar a fila. rs
O sozinho pode ser o sobrevivente.
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