sábado, 1 de agosto de 2009

O Apanhador de Desperdícios


Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Manoel de Barros

4 comentários:

  1. Nossa adorei!
    Lindo,lindo!

    Beijosss flor rara.

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  2. Nossa, maravilhoso seu espaço. Bem, não tenho tempo agora o suficiente para me alongar, mas voltarei aqui para um comentário de excelência. Deixo-te, beijos mil!

    .Priscila Cáliga

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  3. To encrencado pela merda de um trabalho sobre o poema :S mais gostei =P

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O que diz seu coração?