Nós só temos palavras, eu disse uma vez, lembra? Só palavras. Agora eu vejo você sair assim às presas sem levar nada e deixando tudo. Tudo! Você me deixa aqui de mãos atadas, vazias, frias, fracas. Porque eu não posso te alcançar com elas. Se eu estivesse do teu lado ficaria calma tendo só teu silêncio. Mas estando aqui não! Estando aqui esse teu silêncio é só angústia e eu não aceito. Respeito, sim, mas não aceito. Aí você vem à mim com mais lonjuras e mais silêncio e eu não posso fazer nada? Isso é que triste. Isso que faz em pedacinhos a alma encolhida nesse espaço, imóvel, assistindo tua partida. Dói. Será que você pode entender que dói te ver ir? Assim, desse jeito confuso banhando em sal, em lágrimas, em cansaço.
Essa solidão toda que acreditamos em nós é superficial, somos maiores. Você tem que acreditar, temos que acreditar. Do contrário me diz como a gente vence a distância? Como a gente pode existir nesse caos? Confia que seremos sobreviventes nesse desastre do tempo sobre nossas cabeças porque há sobre elas também um céu, nosso espaço, ponto de encontro. Vai, não esquece isso. Não anoitece logo agora que as flores voltam a ter cor e eu preciso te contar do que acontece por esses lados. Não continua caindo nesse buraco negro sem fim, deixa eu te puxar daí, deixa? Há caminhos aqueles que existem apenas em nós, mas não vai por ele tão só, não me deixa também ir tão só... nessa procura vã.
Meu coração inteiro só quer que você não tenha medo do que existe aí dentro. Sei que tem muito além de força e esperança. Só me promete que volta melhor, clara e luz, no lugar certo em ti, sem doer. Não sufoca. Não deixa morrer. Não se deixa ir pra tão longe. Por favor. Por mim. Por você.
"Cuide-se bem
perigos há por toda parte
e é bem delicado viver
de uma forma ou de outra
é uma arte como tudo..."