sexta-feira, 25 de junho de 2010

A moça, e sua vida, no ponto de ônibus

Fazia uma manhã de céu azul, daqueles bem azul-céu sem nenhuma nuvenzinha. A moça à espera do ônibus distraia-se com os que caminhavam por ali. Distraía-se com os passarinhos fazendo bagunça na árvore acima de sua cabeça, com as borboletas esvoaçantes vez ou outra. Fixava horas um ponto no espaço ao redor, e não se sabia o que passava dentro dela quando ficava imóvel em seu tempo. 

Durante um momento perdida dentro de si a moça no ponto de ônibus viu-se atraída por uma senhora que caminhava sozinha pela praça ali em frente. Aquela senhora de cabelos brancos e andar vagaroso parecia carregar consigo algo que a inquieta moça não sabia, e tentava explicar, embora soubesse que qualquer tentativa não seria exata. Viu naquela senhora o seu futuro, um futuro ainda medroso e incerto, e começou a indagar-se sobre ele:

- Será já terei conhecido o grande amor quando me tornar uma senhorinha de cabelos brancos e andar cansado? Será que o olhar ainda terá o viço, ainda buscará a cor, ainda enxergará a beleza de um céu azul? Será que ainda procurarei poesia em folhas caindo, será que ainda vou chorar vendo estrelas no céu? O que serei?  
Ela queria respostas. O tempo, parado.

Em sua visão só existia o seu futuro, ou ela mesma, projetada na figura da senhora de cabelos brancos. O mais estranho é que aquela senhora caminhava em volta do que parecia ser uma praça, mas uma velha praça, de pouco verde e bancos quebrados. A moça teve medo de no futuro, torna-se uma solitária senhora de cabelos brancos caminhando em volta de lembranças mortas.

A moça: dentro de si tudo tornara bagunça com aqueles pensamentos. Um medo grande mas partiu, para seu futuro. Talvez.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Sou Ar


Sou:

Inverno que carrega sorriso de primavera,
Verão que segue brisa de outono.
Noite que busca brilho de sol,
Dia que quer pontilhados de luz.
Sou:

Vida que para e espera,
Tempo que corre e escorrega.
Lágrima constante de olhos atentos.
Pés descalços que alcançam caminhos largos.
Sou:

Palavra sem definição,
Letra que quer significação.
Clarão ao amanhecer, e
Escuridão solitária.
Sou:

Um misto de querer, ser.
Sou vida, intensidade, e agora.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Ele, que não é meu


Existia, e nem sabia que seu endereço era meu coração.
Ele podia estar caminhos à frente,
Mas nem meus passos largos podiam acompanhá-lo.
Ficava sem saber qual tempo era seu tempo.
Meu relógio parado na sua hora:
Portas abertas, pés no ar.
Eu não vou fingir não, vivo nos ares.
Pés no chão? Só para ter ao lado você, que não é meu.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Encontro Marcado


Quando o sol cobrir por inteiro o céu de alaranjado, é o dia.
Quando você sentir aquele aperto no peito,
E uma necessidade de estar perto, é mesmo o dia.

Quando o tempo girar em torno de você e nada sair do lugar,
Quando a dor não passar,
Quando fingir não adiantar,
E o sorriso precisar de mais cor, é mesmo o dia.

Quando decidir fechar as portas
Por saber que ninguém mais deve entrar,
Quando já não for preciso dormir para sonhar,
Quando fechar os olhos e sentir gosto de riso, é mesmo o dia.

Menina, o dia é hoje, é agora.
Corre pelo caminho que descansa ao lado de teu coração,
Perto está ele,
É lá o Amor.

domingo, 6 de junho de 2010

A ponte


Toda noite antes de começar a sonhar eu olho pela janela,
E lá está ele, meu céu.
Nem sempre se pode ver estrelas.
As vezes nem pareceu céu, mas é sempre meu.
Tem noite que de tanto frio lá fora ele fica num tom de cinza,
Mas as luzes amarelinhas o fazem parecer céu de amanhecer.
Meu céu de amanhecer noturno.
Do meu céu é que te contemplo, dele é que chego até você.
Fixo-me nos teus olhos, espero você dizer boa noite.
Entre nós há um céu sempre a brilhar. Vem?
Te dou meu céu, nós juntos iremos só a ele contemplar.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Olhos do meu mundo


Eu vi você.
Seus olhos grandes, alargados, fixando o breu.
E lá mergulhado na escuridão: o seu olhar, pontos de luz.
Você me viu, e eu no seu olhar dancei valsas infinitas,
Assisti o adeus do sol e mergulhei em cascatas estrelares.
Você se foi.
Eu fiquei no seu olhar.
Meu olhar molhado contemplou tua despedida
Pairando no ar querendo te prender no meu.
Eu vi você, seu olhar.
No coração nasceu flor.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Aqui dentro


Uma lágrima que escorre solitária, repleta de sentimento,
Carrega consigo muito de mim.
Minha lágrima tem o peso da palavra não dita,
Tem o gosto amargo do que aconteceu.
Minha lágrima mancha a pele quando desliza pelo rosto.
Ofusca o olhar e desbota até o coração.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Existência


Há uma vida em mim
Que precisa ser vivida.
Há em mim uma busca
Pelo que talvez nem exista.
Há uma necessidade indiferente,
Um momento que não convém.
E me lanço, assumo o risco,
A calmaria me espera do lado de lá.


Sou composta por contradições.
São palavras distantes milhas umas das outras,
Mas que na minha melodia são cantadas no mesmo tom.
Lá, aqui.
Sonho, real.
Amor, dor.
Eu, você.
É que há em mim uma vida
Começando a florescer entre pedras e espinhos.
Uma vida, um coração seu.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Um


Estava sentada no ônibus, eram apenas algumas horas até chegar em casa. Todo aquele movimento, aquele entra e sai de pessoas e eu ali concentrada no nada pela janela. Então aqueles dois saem, e mesmo depois da porta fechada os vejo de mãos dadas.

Dar a mão a alguém significa mais que o óbvio. É como se um dissesse ao outro: eu te ensino a voar mas você não pode ter medo de cair. Ao unir as mãos cria-se a cumplicidade além do momento, são olhos brilhantes, almas que se encontraram, é coração batendo colado um no outro. Mãos dadas é palavra comum. É um pôr-do-sol e céu alaranjado.
Aqueles dois seguiram um, pelo mesmo caminho.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Atrás


A gente volta.
Mas não por querer, nem por poder.
A gente volta porque é preciso, ainda que não feliz.
A gente volta só, mas volta.
Volta querendo ficar lá, no lugar de onde viemos,
Mas é necessário andar esse caminho,
É importante até essa solidão.
Então a gente volta, e tenta fazer tudo valer.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Confissão



Notas que tocavam fundo, e ela pensava:

Fico querendo viver dessas histórias de amor impossíveis de acontecer, e fantasiando e idealizando. É, o problema todo deve ser essa minha idealização de tudo. Aquele amor bonitinho e quietinho lá, feito foto em moldura, não existe não, mas pareço mesmo é fingir que sim. Fico me escondendo de mim como um cego por dentro, coisas que só eu sei e não entendo.
Quem sabe depois de um tempo ele aparece de novo não é? Sim, aquele amor lá de antes. Queria poder saber que ele ainda está lá, ou que esteve um dia. Mas o tempo não espera, o tempo passa, o tempo leva tudo, e foi ele quem te levou, amor. Eu pedia, eu peço que ainda possa te encontrar de novo, te ver, te sentir, te dar as mãos, ser dois em um e o avesso.
Se você pudesse sentir esse pulsar acelerado, se pudesse ouvir esses suspiros de solidão, ou essas palavras querendo significação, você chegaria aqui? Você voltaria, amor?
Sei desses caminhos tortuosos, dessas estradas sem sinalização, eu sei. Sei de todas as distrações e frustrações. De todas as lágrimas, às vezes sem motivo aparente, que vez em quando molham o travesseiro, eu sei.
Eu sei, amor, que você dói mesmo sem existir aqui agora. Eu sei, amor, que você mesmo de longe vai me fazer um tanto maior e mais perto a cada dia. Eu sei, amor, que você vai chegar antes que seja tarde, eu sei.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Equilibrismo

Ele andava por ali.
Era aquele mesmo o lugar, nada de atalhos.
Tinha que andar por aqueles caminhos,
Porque a gente não pode fugir da vida todos os dias,
Uma hora ela nos acha.
Era só que estava meio difícil entender,
Mas não iria ceder não.
Talvez todo o momento estivesse mesmo sem sentido,
Talvez fosse preciso se encontrar,
Fazer nascer motivo naquele coração.
Lágrimas inundando tudo ... era que tinha olhar de chuva.
Mas o moço agora aprendera a equilibrar
Aquelas gotas que saiam rasgando a alma.
E o mundo transbordando por dentro...

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Margem


As palavras do papel girando em sua mente: ' Não se deve ultrapassar as margens da alegria.' Queria encontrar a razão... como assim? E quando a alegria transborda? E quando não há como conter esse sentimento explodindo por dentro? A resposta vinha como se falasse por si:
- Deve ser que quando se ultrapassa essa tal margem aí, já não é mais alegria. Alegria que ultrapassa a margem é Felicidade, daquela sem necessidade de explicação, sem significação. Só plenitude, Felicidade plena.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

A menina e o tempo


Eram dois, eram juntos, eram só.
Ele crescia, deixando ela cada vez menor. Seguiam ...
A menina com o tempo, e a cada passo:
A distância,
A saudade,
O choro,
O riso,
A palavra,
Os abraços.

A menina era aquela, do coração leve, do olhar atento, dos passos tímidos, do sorriso acolhedor. Era aquela das mãos soltas no ar, dos cabelos com cheiro de vento, das conversas infinitas com silêncios que sopravam respostas.

A menina era aquela que vi passar, mesmo às vezes olhando para trás, tinha fixo os olhos no horizonte, no lá, não no fim, no caminho eterno. Aquilo era antes um belo presente, o futuro, e ela sabia. Ela, que corria milhas em pensamento, que conhecia um mundo miúdo, mas seu.

A menina era aquela, que queria ver como o tempo, andar alguns passos à sua frente, saber de suas estradas seguras, suas certezas, seus 'nuncas' e seus 'para sempre'. Mas o tempo era aquele moço sábio, único que conhecia seu amor. E a menina, era ainda e só uma menina.

domingo, 18 de abril de 2010

Lar

Hoje vou pendurar raios de sol em todas as janelas, deixar a luz reinar. Abrirei todas as portas, e substituirei as grades, os portões, por largos sorrisos de boas vindas. Trocarei os antigos jarros de flores já murchas, por outras inspirando vida, colhidas no meu próprio jardim. Do jardim, eu mesma arrancarei as ervas daninhas que com medo e sem coragem deixei crescer, plantarei sementes novas com tom de Recomeço.

Hoje vou tirar do armário todas as roupas sem coragem e sem cor, vou me libertar de todos os juízos sem valor. À tarde, quando chover, vou sair para sentir cada gota d'água em meu ser. À noite dormirei estrela. Pela manhã acordarei arco-íris.

Ao primeiro raio de luz, sentarei em frente ao lago para te esperar nascer em meu lar.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Vida


Uma hora, mesmo sem querer toco o chão.
Dias de asas cansadas, de quando o voo é pesado.
E há tempo vendo de perto, céu, lua, sol nascer, luz.
Nessa nossa grande roda-gigante,
O segredo é fazer girar.
Acredita, e faz girar: Vida

sábado, 3 de abril de 2010

Outono, em uma tarde de Inverno.


Combinamos - eu sei - que você viria, mas agora já faz tanto tempo, que a dúvida cresce dentro de mim. É aquele espaço que nunca se preenche, são aquelas palavras querendo ganhar alma. É uma vontade de sorrir, mas uma maior ainda de deixar chover para fora, de entregar os pontos, de desacreditar. Parece, de verdade, que nossos caminhos são contrários, e o que mais queria era poder te encontrar na esquina do dia em um abraço quente e longo, ouvindo você dizer que o Amor existe e me espera para sempre.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Ao país de Maravilhas.


Alice,

Sei que estou com você todos os dias, mas hoje senti uma vontade enorme de te escrever, de te enviar palavras, e porque eu sei o que elas te provocam, o quanto significam para você, reúno essas aqui agora, como você mesmo diz, as palavras têm alma, e mais, as que nascem do coração.
Vejo você passar de longe, fico imaginando o que se passa aí nessa sua cabecinha, nesse coração que carrega o mundo, e que tem tanto para realizar. Me encanta o tanto de sonhos brilhando nesses olhos, sei também dos muitos caminhos à frente, até entendo esse medo que assombra às vezes, mas você me surpreende com essa determinação, sempre avante. Esse teu olhar fixo no horizonte... esse teu céu, Alice.
É aquela velha história de ter mais estrada para percorrer do que medo, e você segue. Só que em momentos, sinto em mim a tua solidão, a tua vontade de querer ter por perto iguais com quem possa compartilhar teus gostos, teus gestos, tuas tão preciosas palavras. Olha, não se feche para o mundo, para as outras pessoas, para as coisas bonitas que existem e que tens que conhecer.
Sabe, você me fez chorar quando me contou das noites no teu céu, essas em que quase não se vê estrelas, mas só a certeza de que elas estão lá faz de tudo mais iluminado.
Alice, não queria seguir sozinha, mesmo que seja preciso se atrasar, porque eu sei o quanto te fazem bem aqueles sorrisos no plural, aquele estar ao lado, até em silêncio.
Segue menina, segue, mas por favor Alice, não se perca de mim.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Novo Mundo, Novo Horizonte.


Nós não temos noção das conseqüências de nossas escolhas até o instante em que as fazemos. Logo ela, que gostava de ver passar os momentos sem sua intromissão, e que, às vezes, dedicava um tempo só para sentir como se não existisse em alguns instantes. Para ver como seria se ela não cumprimentasse o motorista naquele dia, ou se não sorrisse para aquele moço, como seria se ela não existisse nesse mundo? Logo ela, agora tinha que decidir, fazer a escolha, assumir riscos não somente para si, mas, e, principalmente, para os outros. Aqueles outros a quem tanto amava, e sentia o amor que vinha deles, um tal amor sem explicação, do amor que ela só conjugava sentir, Amor. Logo a ela foi dada a responsabilidade de não decepcionar, não se frustrar. Aceitou, foi. Ela é enquanto vai sendo, voltar ao porto seguro, buscar o horizonte em qualquer direção.

sábado, 27 de março de 2010

Dos dias nublados em que se busca o pôr do Sol


Quando se tem que partir, a saudade surgi mesmo antes do primeiro passo. Aí você tem que aprender a conviver com ela, e não é fácil acordar com a Saudade, caminhar com a Saudade, conversar com a Saudade... sorrir com ela talvez seja o mais impossível dos gestos.

Um dia me foi dado um caminho distante com direito apenas a uma companheira, ela: a Saudade. Parti. Então agora, encontro-me aqui, ao lado dessa companheira inseparável, trilhando por estradas desconhecidas com passos tímidos e medrosos. Mas entre uma lágrima e outra, a gente vai crescendo, e até aprende a sorrir às vezes. Entre uma palavra e outra, a gente sente o quanto nos amam, e que se pode Acreditar.

Foi durante esse tempo com a Saudade que ganhei um pensamento de alguém bem especial, palavras valiosas que me serão confortantes sempre que essa tal de Saudade querer incomodar demais: Não se tem medo de partir, quando se tem seguro, para onde voltar.