domingo, 23 de setembro de 2018

o que você sabe sobre a Boa Nova?
É o dedo em riste apontando o abismo no outro?
o que você sabe acalma alguém?
faz bem a quem?

Se o que você sabe sobre a sua fé
é parâmetro para medir a minha
estamos cada vez mais distantes do
divino.

Não fale,
leve-me ao encontro do Pai.

[a poesia que nasce do desencontro - porque não estamos completos, nunca - fala de Te encontrar]

domingo, 1 de abril de 2018

Cheia

eventualmente
uma porção visível de mim
iluminada
é não aparente a ti
e a f(r)ase da lua que
mais importa
projeta sombra de
nós.

e desde então, nada mais

ontem à noite raspei o tacho da panela
uns versos furados levantaram-me as
pálpebras minutos antes de Morfeu
render abraço

sorri como quem reeencontra
desconhecidos em nova intimidade

fui entregue ao caos.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Moro bem

sou minha própria casa
ninguém me queira entrar trocar móveis de posição
comprar espelhos para expandir os ambientes ou
para que eu a mim veja melhor se
o que não sou é o que
jamais vai conseguir sequer pular as janelas
não vai dá para ser outra
senão eu
dentro de mim
todo este interior e
vasto horizonte.

domingo, 17 de setembro de 2017

dança no vazio

este ser inteiro que
por meio de mim valsa
nada é além
do espaço que carrego
entre eu e o que
não sou

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Eternos

se minha rua
junto a tua
avenida seríamos
texto que a cidade inteira
caminharia para ler a pés de altura
de pés no chão e
volume de nós liquefazendo
estrelas.

felicidade de segunda
essa tua
ficar acreditar exigir até
que abrigo eu fosse
em ti morar

acaso eu não flor
te sustento espinhos
e é solo
que canto.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Desconhecido

este ser, você diz
incompreensível
misterioso
fraco, eu digo
faca!
faça valer e
sê livre
este ser, você diz
objeto
abjeto
coisa
tralha
diacho!, eu digo
este ser é
humano
miseravelmente
ser humano.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Teu outro

Essa pele
que me separa do mundo
e de ti
essa pele
que me divisa
esse pedaço limitado
essa cor nenhuma
esse abissal esconderijo
esse ainda
não sou eu.


quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Cuidado, é uma mulher!

O sangue fervia enquanto
ele julgava me ofender
pela natureza do que sou
não aceito a sina
não relevo a ignorância
É uma mulher, sim
na rua
cuidado!

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Eu me navego

Vem beber do meu coração
poço fundo
passo profundo e vejo
ressuscitar
sombras potentes
das formas do que
sou
Não estou à mercê
de canetas e papéis
Sento, escrevo
ou saio e vivo
não escolho
não peso consequências
não peço permissão
nem pergunto quem virá
Chego, sento
ou escrevo e me afogo
não quero ser salva
não interpreto sinais
não invento senhas
Eu me arranco um pedaço
é assim
que dou de comer aos
poemas que dormem comigo
abre espaço
É desse buraco no peito
que transbordo
sangue
silêncio e
sal.

domingo, 1 de janeiro de 2017

Posso tirar os sapatos?


Escrito no dia 22/nov/2016, 
mas um desejo e uma saudade para hoje: 
365 novos dias para serem sentidos com os pés na terra; 
a textura do mundo, o inteiro.



- Tia, a gente pode tirar os sapatos?
- E a meia?
- ÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊ, tia deixou!!!


Lá na minha turma ouço essas perguntas todos os dias. A todo o momento e antes de começarmos qualquer rodinha. Antes da leitura. Antes da notícia. Antes do “que dia é hoje? Como está o tempo lá fora? Vamos marcar?”. Antes de abrirmos a caixa divertida. Vou confessar que tem dias eles ouvem um “hoje não”, porque imagina você calçar às pressas oito pares de sapatos (alguns bem difíceis) enquanto os pais, nem sempre pacientemente, esperam na porta? Mas, Alice, você não os incentiva a serem independentes? Claro! Mas os pais estão esperando na porta, eu tenho que correr e nem sempre todos podem viver o ato de calçar as alegrias do dia em seus próprios sapatos.

Você aí, que alto de sua sabedoria já sabe amarrar seus cadarços, lembra-se da primeira vez que os fez sozinho? Lembra-se do quanto foi difícil entrelaçar aqueles fios, os nós, o laço final? O que hoje fazemos no automático aos quatro anos é uma das tarefas mais difíceis do mundo. Exige calma, concentração. Exige muita habilidade motora, percepção visual e espacial. Exige uma sequenciação de movimentos que às vezes eu não tenho!

- Mas é rapidinho, tia. Depois a gente calça!
- Quem tirar vai ter que tentar amarrar sozinho depois, hein?


Vou confessar que usava essa estratégia para fazê-los pensar que era melhor ficarem calçados, o que jamais impediu a aventura de muitos. Uma crueldade terrível. Sim, Alice sente vergonha disso. Tanta que o deixou de fazer e passou a desatar os nós. Aprender a amarrar os cadarços exige amor.

Há um mês Eliza calça e amarra, sozinha!, os cadarços dos seus sapatos. Vai em nosso diário o registro daquele dia memorável. Nossa, foi uma felicidade sem tamanho. A todo tempo dizia já estar independente. Calçava e descalçava aqueles sapatos com um sorriso no rosto e exibindo para todos sua destreza. Ontem foi Cleber. Há dias ele não aparecia na escola e chegou com essa novidade. Brincamos descalços. Pés no chão, coração pulsando o corpo inteiro. Transpiramos felicidade.

Hoje eu quero apenas pedir desculpas pelos dias em que vocês ficaram calçados. Pelos dias em que seus dedos não se refestelaram pelo lado de fora. Porque o mundo carece de ser tocado com os pés de vocês. O mundo carece desse carinho que se espanta com o frio e a dureza dos dias tentando reinventá-los (e conseguindo sempre!). Por favor, vamos todos tirar os sapatos antes de começar a viver! Agora será assim.

sábado, 31 de dezembro de 2016

Ainda irei dançar balé
sobre as teclas e
sem plateia
serei eu mesma a aplaudir
Corajosa, também irei cantar
O que seria?
Um canto orquestral
com sinuosas texturas melódicas
cores graves que do alto
despencariam
soprano, minha voz
ecoaria sem cor
aguda
até teus ouvidos dizendo:

é chegado o tempo.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

A ti faria mapas que
indicam a menor distância entre
quem escolheu a vida e
aquele que a recusa em
delírios temporais
mas eu, veja
não tenho o menor
senso de direção
Gostaria mesmo é de
conseguir me equilibrar na vida
como faço no
meio-fio das calçadas.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Bianca

você me sorria como
a tampa do piano aberta
foi como se no momento exato
de tua chegada a gente já se soubesse
o que viria depois apenas notas que
às vezes eu julgo nunca alcançar
mas você ignorou as regras do dia
e me apontou os caminhos
subiu e desceu escalas comigo agora
a gente se tem e
ninguém ache absurdo
eu te amar assim.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Oito



Se um dia eu necessitar escolher um número para ter sorte será este: oito. Acontece, porém, que às vezes não acredito muito em sorte, então, penso que a oportunidade de me bipartir em vocês tenha sido algo maior, tenha sido algo do divino. A possibilidade de poder mergulhar em oito mundos tão diferentes, esses olhares que vocês gentilmente me emprestaram, os sorrisos, as dúvidas, as perguntas tão sensíveis quanto científicas que bagunçaram o meu mundo só para arrumar tudo em outro lugar depois.

Nem foi preciso sair do chão para flutuar. E também não foi duro ou pesado estar no chão com vocês. Eu não tive que diminuir nem um pouquinho para ser aceita nestes oito mundos, ao contrário, vocês foram me fazendo maior e cada vez mais alice, Alice, até eu me encontrar, e de verdade!

Como posso agradecer por não estar só agora? Eu sei que vocês irão por outros caminhos, mas nas memórias que construímos juntos há oito cores que irão colorir por muito tempo minha vida. E são estas:

Davi,
durante este ano, todas as vezes em que você disse “posso falar um coisa?” o mundo tornou a começar. E sempre, sempre de uma forma mais bonita. Obrigada por nos trazer dúvidas. Agora sou eu quem quer “falar uma coisa”: AMO VOCÊ!

Cecília,
eu fico te vendo sorrir e a minha vontade é de sentir o mundo como você sente; é de cuidar do outro como você cuida dessas bonecas. Obrigada por acender a luz da infância em mim. Vou cuidar para que ninguém apague!

Emanuelle,
fiquei te observando pular amarelinha e a minha vontade é de ter metade da tua habilidade em se equilibrar assim, mas na vida, sabe. Obrigada por nos ensinar as regras do jogo e também por nos ajudar a subvertê-las e criar as nossas próprias regras, sempre melhores!

Edvanilson,
obrigada por sorrir enquanto brinca. O que você deixará em mim é só isso (e é tanto!): o barulhinho bom daquele que além de enxergar o outro, sempre se encanta com o que ele nos oferece. Você me ofereceu o melhor. Obrigada, sim?

Yasmim,
em nosso último encontro você disse que não iria me deixar só e convidou a turma inteira para ficar mais perto de mim. Olha, nunca estarei só enquanto a lembrança do seu sorriso doce estiver viva em meu coração. Obrigada por emprestar delicadeza para eu olhar os dias. Vamos juntas, sempre!!!

Eliza,
eu, que do alto dos meus 1,80m de altura mal sei caminhar sem tropeçar, morro de vontade de dançar só para te acompanhar nesse bailar tão bonito com a vida. A tua dança ainda vai mudar o mundo!

Cleber,
se tiveres que escrever o mundo com esta grafia linda que tens, que traços bonitos a nossa vida ganhará! Espero sempre poder ter espaço em tuas histórias.

Eloáh,
aprendemos tanto uma com a outra, nos misturamos tanto que olho para você e nem sei mais onde sou apenas eu, onde é apenas você. Que bom, não é mesmo? Seguiremos juntas!

Porque uma vida é pouco sei que tenho mais oito, agora, vivendo fora de mim! Só agradeço.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Estou vestindo poemas porque
nenhuma roupa me cai bem o
que não chega a ser verdade com
eles mas são os únicos
que ousam me abraçar agora
Vou descalça porque assim sinto
o volume do chão
nos pés
líquidos os caminhos os laços e
nós
sempre tão cheios de nós.

domingo, 27 de novembro de 2016

Há pouco tempo
fizemos reforma em casa mas
nas paredes do meu quarto, apenas aqui
tem umas fissuras
que vão do teto ao chão
Observei hoje pela manhã
são diagonais ininterruptas
algumas se cruzam
outras somem sem rastro comum
entre a fenda no meu coração e a
mão que o afaga estuda o toque
há um
não
querer
curar-se.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Não estou pedindo respostas

Mas como viver no mundo
quem se deslumbra com
qualquer sinal de afeto?

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Terceirizando a culpa

Poesia miúda
linguagem absurda
escrevo
culpado
é quem me lê.